Casas japonesas, no imaginário Ocidental, são frequentemente associadas à imagem de organização. Culturalmente, os japoneses prezam muito pela limpeza dos seus espaços, tanto públicos quanto privados, e entendem o ato de limpar como responsabilidade de todos. Em eventos esportivos, as torcidas nipônicas têm o costume de recolher o lixo dos estádios após o fim de partidas e, nas escolas, são os próprios alunos que se encarregam de fazer a faxina. Nas residências, um cômodo se destaca nessa lógica: o genkan.

O que é o genkan

Entrada de uma casa com piso de cerâmica cinza, um degrau de madeira clara, e um tapete branco com desenhos geométricos pretos. Dois pares de chinelos estão sobre o tapete. À esquerda, um armário de madeira clara com um vaso de plantas e uma janela acima. As paredes são brancas
<span class=”hidden”>–</span>Furnazing/Reprodução

O genkan, espaço presente na grande maioria das casas japonesas, é uma área na entrada da residência onde moradores e convidados deixam seus sapatos e casacos. Trata-se de uma variação do nosso hall de entrada, porém com funções mais bem definidas que marcam a transição entre exterior e interior. Entrar em casa com os sapatos “da rua” é considerado falta de respeito.

Arquitetura e higiene

Entrada de uma casa japonesa com piso de pedras e madeira clara, chinelos alinhados, porta de correr shoji e um vaso com flor vermelha sobre uma prateleira. Ao fundo, um corredor com uma janela circular.
<span class=”hidden”>–</span>Instagram @machiyajapan/Reprodução

Arquitetura e práticas de higiene caminham mais juntas do que se imagina. “Ao longo da história, arquitetura, urbanismo e mobiliário responderam às necessidades de higiene e descobertas da ciência várias vezes, seja criando soluções, seja eliminando aquilo que se provava prejudicial. No Brasil do final do século 19, com os esforços sanitaristas, por exemplo, as alcovas – os quartos sem janelas – foram proibidas por entender-se que a falta de circulação de ar era insalubre. Lavabos apareceram nas casas como uma forma de evitar que convidados usassem os mesmos banheiros da família e os azulejos claros passaram a ser aplicados em cozinhas e banheiros para facilitar a identificação e remoção da sujeira”, explica a professora de história da arquitetura da Universidade Federal do Paraná, Juliana Suzuki.

Entrada de uma casa japonesa tradicional com piso de pedra, dois pares de geta (chinelos de madeira) no chão, e portas de correr shoji e fusuma abertas para quartos com tatames e paredes de madeira escura
<span class=”hidden”>–</span>Instagram @machiyajapan/Reprodução
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Ela também pontua que os espaços de transição aparecem em diferentes momentos da arquitetura, em vários locais. “Separar o público do privado é algo que muitas sociedades prezam. É uma questão de proteção, tanto física quanto simbólica. Visitantes precisam passar por esses locais antes de chegar na intimidade das casas. Pense em um palácio, por exemplo: não é conveniente que qualquer pessoa que chegue esteja imediatamente diante do governante. Antessalas, halls, varandas são formas de preservar e resguardar pessoas, objetos e hierarquia”, completa.

Entrada de casa com sapateira de madeira clara e prateleiras pretas cheias de sapatos, porta preta com chaveiro de caranguejo e piso de madeira e azulejo preto. Quatro pares de chinelos brancos estão no chão
<span class=”hidden”>–</span>Pinterest/@SUVACO/Reprodução

O genkan surgiu nas residências no período Edo (1603-1868), mas era restrito à nobreza e considerado símbolo de status. Mais tarde, chegou às casas populares e hoje está presente em praticamente todas elas. Mesmo apartamentos ou imóveis compactos incluem alguma variação do genkan, em maior ou menor escala.

O prédio luxuoso caindo em Manhattan e o dilema dos arranha-céus


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Arquitetura do genkan

Entrada de uma casa japonesa com piso de cerâmica escura, dois degraus de madeira clara e um corrimão simples. Ao fundo, piso de madeira brilhante e portas de correr shoji com treliças de madeira e papel translúcido, iluminadas por luz natural e luminárias retangulares no teto de madeira
<span class=”hidden”>–</span>Yahoo Taiwan/Reprodução

Em termos práticos, o genkan ajuda na limpeza e na higiene, pois impede que a sujeira do lado de fora entre. Em locais com chuva e neve, casacos molhados e guarda-chuvas também ficam ali, evitando a bagunça da umidade.

Um genkan tradicional fica localizado entre a porta de entrada e a área social da casa, geralmente rebaixado por um degrau ou plataforma (shikidai) e revestido de materiais de fácil limpeza, como revestimentos cerâmicos.

Um par de sapatos sociais pretos brilhantes no chão de um corredor estreito e claro. O corredor tem paredes bege, um degrau de madeira e uma porta fechada ao fundo com detalhes quadrados de vidro. À direita, armários embutidos bege com puxadores dourados.
<span class=”hidden”>–</span>Fg2/Wikimedia Commons
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Quando alguém chega, tira os sapatos e os posiciona virados para a porta, para facilitar colocá-los na hora de sair. Os moradores costumam oferecer chinelos para serem usados no interior. Também podem estar presentes uma sapateira (getabako) e uma prateleira ou armário pequeno para chaves e pequenos itens (tenbukuro). Não é considerado educado, segundo a etiqueta, pisar no genkan descalço ou de meias, já que é uma superfície não limpa. O percurso é dos sapatos para os chinelos domésticos e dos chinelos para os sapatos. Entregas domésticas também são realizadas no genkan, evitando que outras pessoas entrem desnecessariamente na casa.

Simbologia para além da limpeza

Entrada de uma casa moderna com porta de madeira à esquerda, piso de tábuas claras e um degrau. À frente, sala com sofá branco, mesa de centro e porta de vidro que dá para um pátio externo com mesa e cadeiras. À direita, armários de madeira clara e plantas. Dois pares de chinelos estão no chão, perto do degrau
<span class=”hidden”>–</span>Instagram @bunch_design/Reprodução

Entretanto, para além das questões pragmáticas e sanitárias, o genkan tem um significado cultural mais interessante e profundo do que economizar tempo na faxina.

“Da mesma forma que resolve problemas, a arquitetura também responde e reflete os valores e conceitos de quem a constrói. A privacidade e o respeito são fundamentais para a cultura japonesa. O genkan é uma materialização espacial desses conceitos.” explica a professora.

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Os japoneses são reservados, separam sua vida pessoal da vida pública e prezam pela consideração ao próximo, no caso, quem irá limpar e usar o ambiente. Sendo assim, faz bastante sentido haver um cômodo como o genkan em casas de pessoas que vivem e pensam dessa maneira.

Tirar os sapatos ao entrar no lar é um bom “truque de limpeza” que pode ser facilmente adotado por qualquer um, mas o genkan carrega consigo todo um conjunto de características históricas e sociais. É um espaço que reflete relações sociais e também define interações do dia a dia.

O que achou? Vai começar a tirar seus sapatos para entrar em casa também?

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