A arquitetura de interiores é feita de milhares de possibilidades e há espaço para todos os gostos, mas um movimento em especial vem ganhando força nos últimos tempos: a decoração afetiva.
Ainda que as redes sociais tenham criado ambientes instagramáveis e a inteligência artificial proponha soluções cada vez mais genéricas, há quem venha na contramão em busca de ambientes acolhedores, que abraçam as peças antigas, as memórias e até uma certa “bagunça”. A ideia é fugir do genérico e criar decorações que transmitam a chamada “cara de casa”. Entretanto, o conceito vai além de resgatar a poltrona da avó e encher uma estante de lembrancinhas de viagem.

Outra maneira de olhar a decoração
O que exatamente dá a “cara de casa” para o lar? Para a designer de interiores Cacau Ribeiro, tudo começa com o morador e sua compreensão de si. “Antes de tudo, a gente precisa entender quem são essas pessoas. O que as motiva, o que elas gostam de fazer, quais são seus costumes. Eu pergunto desde quais cores os clientes preferem até o tipo de música que escutam”, conta a designer sobre como começa seus projetos.
O arquiteto e autor Jonas Lourenço concorda que a escuta ativa é sempre o ponto de partida para compreender quem vive ali, mas alerta que é preciso cuidado para que o afeto não vire apenas uma estética. “Não sou defensor da ‘casa com cara de vó’. No momento em que isso vira uma tendência, corre-se o risco de se impor algo que não tem a ver com a pessoa”, ressalta. Para Jonas, a casa precisa conter três elementos: identidade, pertencimento e memória, de modo que a pessoa sinta-se representada por ela.

A Casa CLAUDIA conversou sobre os conceitos da decoração afetiva com Cacau e Jonas. A designer de interiores já participou de edições anteriores da CASACOR São Paulo e Ribeirão Preto com trabalhos que refletem essa lógica. Já o arquiteto é autor do livro Entre o concreto e a memória: a casa afetiva, sobre o tema.
Tendência ou vivência?
É delicado chamar a decoração afetiva de um “estilo”, pois não se trata de um conjunto predeterminado de móveis e cores, mas sim de um jeito de projetar e encarar a arquitetura e os interiores.
“Você pode escolher a pedra mais cara, a poltrona mais desejada, a obra de arte mais importante. Se aquilo não vier ao encontro do que a pessoa gosta, eu acho que pode até ser bonito, mas é uma casa sem personalidade”, pondera Cacau.
Isso significa que qualquer estética pode ser afetiva, até mesmo as mais clean e minimalistas, como lembra Jonas, desde que reflita aquilo que o morador é, em vez de ser uma réplica de um showroom. Afinal, mais do que um apelo visual, a ‘cara de casa’ vem da autenticidade, de interesses e de histórias. “Se você não aplicar isso, as casas vão ser impessoais”, reforça Jonas.

Não só de passado vive o afeto
Quando pensamos em decorações afetivas, as primeiras coisas que vêm à mente são os objetos do passado. Um móvel herdado, uma vitrola do avô, uma lembrança de viagem. Contudo, o presente é tão importante quanto a memória. Hobbies, afinidades e os próprios gostos estéticos atuais fazem parte da casa tanto quanto a nostalgia. Esse equilíbrio garante que a decoração não seja uma caricatura ou uma réplica da casa dos pais ou avós.
Cacau explica que a ressignificação e a incorporação das memórias pode se dar de muitas formas, das mais diretas até as menos óbvias. Um papel de parede, por exemplo, pode fazer referência a um azulejo da casa de infância.

“Acho que os espaços têm que ter essas transições, de memórias ao atual. O afeto está relacionado às lembranças daquilo que te faz bem, mas acredito ser muito importante e possível olhar o que já existe e transformar em algo novo sem perder a essência”, afirma a profissional. “Do ponto de vista psicológico, há necessidade de que você se sinta abraçado e acolhido pela casa. Se tudo nela for absolutamente novo, é um cenário. É preciso trazer a memória, aquilo que nos dá esperança, motivação para olhar para o futuro”, acrescenta Jonas.
Nesse sentido, texturas, estampas, tecidos e até aromas e o tato são excelentes recursos para ancorar vínculos e criar atmosferas. A luz que entra pela janela, uma planta de espécie específica ou um convite do projeto para um andar descalço sobre determinado tipo de piso podem conectar o morador à afetividade.
Onde colocar?
Todos esses elementos precisam ser acomodados por meio de mobiliário, então, inevitavelmente, as peças que funcionam como vitrine são essenciais. “Eu amo uma estante”, revela Cacau. Além delas, prateleiras, nichos e aparadores são úteis para expor aquilo que é importante para o morador. “Recobrir as paredes de história faz todo sentido”, enfatiza.
Além do mobiliário, Cacau explora as paredes e o espaço vertical. E ela não se limita às pinturas e fotografias: “Gosto de emoldurar objetos. É uma outra forma de expor sem ser em uma estante”. Pequenas peças, como um brinquedo, uma joia e até uma carta podem tornar-se belos quadros.

Os móveis também contam histórias. Uma peça herdada da família pode ter lugar na casa com a mesma ou outra função. Um baú pode virar mesa de centro. Uma máquina de costura, uma escultura.
Memórias coletivas
Cada casa é uma casa, entretanto, há certos elementos comuns que perpassam muitas residências e que fazem parte da vida de quase todo mundo. Alguns desses objetos, inclusive, viraram uma estética própria da brasilidade: o filtro de barro, a jarra em formato de abacaxi, a cristaleira. Sendo assim, há algumas peças que podemos considerar “tendência”, não na ideia de modismo, mas sim no pensamento de um passado compartilhado.

A praticidade faz parte da decoração
Quando falamos em décor, muitas vezes o lado pragmático da vida fica de lado, como se decorar fosse criar uma composição que funcione numa foto ou, como Cacau fala, “para as visitas”. Mas o lar deve atender às necessidades dos seus moradores, até mesmo às mais práticas: se a torrada é o café da manhã, então a torradeira fica fora do armário; se as crianças voltam da escola com mochila e sapato sujo, o hall demanda um lugar para pendurar as bolsas e deixar os sapatos; se o morador gosta de assistir à TV com os pés para cima, o sofá terá uma chaise ou haverá um pufe.
“Aquela cozinha perfeita, com tudo no lugar, não é utilizada. A sanduicheira, a cafeteira, tudo isso tem que estar ali de forma prática. Ninguém vai ficar tirando eletrodomésticos do armário às 6h30 da manhã. É uma ‘baguncinha’, mas aquilo faz parte da cozinha”, lembra Cacau.

A bagunça não é o oposto da organização. A decoração afetiva também contempla a qualidade de vida, que se reflete no uso diário, nas escolhas que, mesmo nem sempre sejam as mais elegantes em termos estéticos, são as que fazem da vida algo mais confortável.
Construir a partir das sensações
A casa com cara de casa, portanto, é mais um sentimento do que uma estética. A sensação de casa acontece por meio do pertencer, do conforto, da segurança, da qualidade de vida. Ela é uma decoração que não vêm do catálogo ou do Pinterest direto para o cômodo. Decorações afetivas são aquelas que passam pelo filtro humano, que são feitas aos poucos. “Eu considero a casa um organismo vivo. Ela vai acompanhando a pessoa em todos os seus ciclos. Hoje eu gosto disso, amanhã pode ser que não goste mais. A casa nunca está pronta!”, pontua Jonas.
Nesse sentido, a ‘cara de casa’ vem do entendimento de que são as histórias, o bem-estar, as necessidades e os gostos que definem a decoração, e não o contrário.
Desde o sofá do avô até ter o lugar para guardar as mochilas das crianças, ou o canto de leitura, de ioga, o jardim vertical, o quarto gamer. A casa mostra quem você é: abriga seu passado, é parte funcional do seu presente e tem espaço para o que ainda virá pela frente.
“É isso o que constrói essa relação de casa de verdade: olhar para a minha casa e ver que ela cabe dentro de mim e que eu caibo dentro dela”, finaliza Cacau.












































