Antes de qualquer arquitetura, existe um terreno. E muitas vezes esse local não é desobstruído ou completamente vazio. Plantas, pedras e outros elementos naturais formam a paisagem que antecede a construção. Não são todos os casos em que é possível preservar a paisagem na hora de erguer uma casa, mas quando essa arquitetura consegue se construir junto da natureza, projetos extraordinários surgem. Reunimos casas nas quais profissionais tiveram as árvores e o entorno como elemento constituinte do partido arquitetônico. Entenda como eles encaixaram a natureza na arquitetura, ou melhor, a arquitetura na natureza.
Paraísos praianos que abraçam a vegetação
Árvore entre as pérgolas

Em Trancoso, na Bahia, David Bastos ergueu uma casa de praia com estruturas em pau-roliço de eucalipto, telhas cerâmicas coloniais, forro tramado em palha de dendê, pisos em cimento queimado branco, decks em madeira Cumaru e muros em pedra Madeira, sistema construtivo que exalta técnicas e materiais da região.

“O ponto de partida foi a beleza natural do terreno. A combinação de elementos rústicos e contemporâneos cria o que há de mais precioso na casa, realçada pela vista exuberante, visível em diversos ambientes. Terreno e projeto se entrelaçam em uma simbiose única, conferindo ao local uma beleza singular e inigualável”, explica o arquiteto.
As árvores foram plenamente incorporadas nas varandas e passarelas. “Costumamos valorizar o paisagismo e os elementos naturais originais. Neste caso, a árvore, além de ter um porte maduro que não justificava sua remoção pelo impacto ambiental, foi respeitada e incorporada ao projeto. Criamos acessos e passarelas ao seu redor e, em sua base, construímos a rosa dos ventos com orientações reais, destacando sua importância e contexto”, comenta David.
Mangabeira como teto

Em outra praia do Sul da Bahia, a arquiteta Mari Grobério também olhava para as árvores para criar um projeto. A Casa Nuhatê fica em Caraíva, uma comunidade praiana próxima a Porto Seguro, no condomínio Outeiro das Brisas. O nome Nuhatê significa “força” na língua pataxó, povo originário ao qual pertence a moradora. A casa-pátio de aproximadamente 128 m² envolve duas árvores já presentes no terreno e outras menores.
Como a construção respeitou o ângulo de crescimento das plantas, no jardim central, a copa das árvores transforma-se na cobertura de quem fica na rede ou no balanço. “Quando vamos projetar em torno de uma planta, ela tem que ser respeitada desde a raiz até a copa. A árvore tem que funcionar no projeto e o projeto tem que funcionar para ela”, explica a arquiteta. “O pé de mangaba foi a pedra fundamental da casa”, afirma.

Ao redor do pátio se estende a residência, composta por duas suítes, cozinha, varanda e jardim com piscina. Persianas de madeira, janelas e uma porta de correr de vidro permitem o acesso e a integração do espaço externo aos demais ambientes.
Para a segunda suíte, a arquiteta criou um espaço bastante especial: ao redor da raiz da mangabeira fica o box do banheiro. Fechado por troncos, ele permite uma experiência de banho única, em plena conexão com a natureza.
Construções que desaparecem na mata
Paisagem que adentra

Este terreno de 1.800 m² cercado por vegetação exuberante, com uma imensa pedra natural de um lado e um riacho que cortava todo o lote nos fundos, encantou uma família que decidiu erguer ali sua nova casa.
Para a construção, os arquitetos Thiago Morsch e Michele Wilkinson, da Thimi Arquitetura, tiraram partido da leve declividade e projetaram uma casa térrea e compacta, mas com espaços generosos para receber amigos e aproveitar os momentos em família, como o casal de proprietários desejava.

Mantendo o conceito de interior e exterior fluido, a transição entre os volumes social e íntimo é feita por uma árvore que já estava no local. Esse cuidado com o entorno e a natureza é constante em todo o projeto. A varanda posterior, por exemplo, conecta-se diretamente com um paredão verde e a imensa rocha, integrando o interior com a paisagem de forma poética.
Continuação da floresta

A proposta desta casa era ser um refúgio na Mata Atlântica. A residência, assinada por Gui Mattos, abre-se para um jardim de 150 m² concebido pela Jundu Paisagismo, escritório fundado por Airton dos Santos e especializado em integrar a arquitetura à paisagem natural de maneira orgânica e sensível. Por estar implantada em uma Área de Proteção Ambiental (APA), o cuidado com o paisagismo teve de ser extremamente rigoroso.

“Criamos os espaços desejados pelos moradores através dos caminhos de circulação”, comenta o arquiteto paisagista. As pedras também foram usadas para formar bancos e escadas, enquanto a cobertura do solo foi feita com areia branca, que reforça a drenagem natural e remete à paisagem praiana.
A limpeza do terreno foi realizada com extremo cuidado para manter as espécies existentes e preparar o solo para a nova configuração. “O desafio era introduzir o projeto em uma APA, sem danificar o entorno e preservando as árvores nativas. A solução foi criar uma paisagem natural, preservar a permeabilidade do solo e valorizar as espécies nativas já existentes no local.”
O layout fluido permite que o paisagismo acompanhe o ritmo da casa e da mata. Para Airton, isso está no DNA do escritório: “Particularmente, esse é o nosso ecossistema favorito e campo de trabalho preferido.”
Refúgios na “selva de pedra”
Amazônia urbana

Em Manaus, também em uma área de proteção ambiental permanente, o escritório Laurent Troost Architectures assina a Casa Pupunha, uma construção cuja premissa é não somente a integração com o verde, mas também o aproveitamento dos recursos que a natureza oferece quando associada à arquitetura.
O nome faz referência à palmeira pupunha que ocupa o centro do lote, preservada durante toda a obra, e às outras plantadas ao redor da residência, que se tornam parte essencial do conceito paisagístico e arquitetônico.

A solução estrutural partiu da criação de uma “casa-ponte”, apoiada sobre dois blocos laterais de concreto armado, que concentram as áreas molhadas e os usos técnicos da residência. Essa estratégia permite liberar totalmente o espaço central do pavimento térreo, criando um vão livre generoso, com integração total com o entorno e ventilação cruzada permanente.
O projeto priorizou técnicas de baixo impacto ambiental, evitando qualquer tipo de terraplenagem. A pupunha central atravessa a construção e foi complementada por outras espécies frutíferas e trepadeiras no paisagismo, além de um espelho d’água no jardim frontal que funciona como elemento de transição entre os espaços público e privado.
Bossa carioca clássica

No Rio de Janeiro, fica uma casa de estilo clássico erguida nos anos 1930, em Botafogo, com três andares distribuídos em cerca de 1.000 m². As arquitetas Carolina Lerner, Gabriella Mello Alves e Sabina Kalaoun, do Studio LAK, foram as responsáveis por transformar o imóvel em um lar contemporâneo para uma família em crescimento.
A área gourmet, projetada do zero no jardim, materializa essa parte mais atual do conjunto e abraça, de forma escultural, a árvore do terreno. “Esse anexo foi pensado como uma inserção arquitetônica mesclada ao contexto da casa, com uma cobertura arredondada e pilares duplos em acabamento corten. Para preservar a árvore ali existente, chamada sol-da-bolívia, foi prevista uma abertura no teto, abraçando a base da copa”, revela Sabina.

Segundo Gabriella, a casa é “uma releitura brasileira do estilo europeu clássico: priorizamos linhas elegantes, paleta neutra e alta qualidade dos acabamentos. Foi um desafio grande fazer uma releitura estética dessa casa, sem abrir mão do caráter atemporal que gostamos de imprimir em nossos projetos”, finaliza.
Jardim secreto paulista

São Paulo é, para muitos, a antítese da natureza, a selva de pedra. Entretanto, há quem consiga criar oásis em meio ao cinza. A casa assinada pelo escritório Arkitito não parece esconder nada de diferente do lado de fora, mas o formato do terreno, comprido e estreito, com 10 metros de largura por 52 metros de comprimento, direcionou o projeto para uma construção inusitada.
A implantação longitudinal tem uma estrutura principal, com pé-direito duplo e telhado em duas águas, e um volume limítrofe, concebido como uma dupla de caixas sobrepostas.

A estrutura principal acomoda ambientes sociais no térreo e um espaço de trabalho no mezanino. O segundo volume abriga os espaços de serviço no térreo e os dormitórios no piso superior. Os ambientes são interconectados e abrem-se, por meio de folhas de vidro, para o jardim dos fundos, que tem churrasqueira, piscina e duas árvores nativas.
Internamente, uma das paredes da estrutura principal traz blocos de concreto aparentes, atendendo a um dos pedidos dos moradores. A outra tem uma faixa inferior revestida por painéis de madeira que mimetizam a generosa porta de correr de acesso à cozinha e ao home theater — que é conectado à varanda. O projeto é um encontro entre a urbanidade e a natureza, provando que elas não precisam ser excludentes, mesmo nas grandes cidades.













































