Nem toda casa começa como um sonho: algumas começam com dúvidas, mas, se existe potencial, há como idealizar algo novo. A residência do arquiteto Paulo Tripoloni, onde vive com a esposa e os dois filhos pequenos, é resultado de um olhar que ultrapassa a primeira impressão.
O imóvel, que antes funcionava como endereço comercial, apresentava ambientes compartimentados, pouca abertura para o exterior e uma ocupação quase total do terreno estreito de 5,10 x 28 m, o que resultava em uma edificação escura, pouco ventilada e sem áreas livres.
“Não foi amor à primeira vista, mas, junto da minha esposa, conseguimos enxergar o que ela poderia se tornar”, relembra.
A proposta inicial era uma reforma pontual, que logo se mostrou insuficiente. Ao lado da equipe de obra, Paulo entendeu que seria necessário, além de preservar o perímetro original da casa principal, reconfigurar completamente a residência, redistribuindo os espaços e, principalmente, devolvendo respiros ao terreno.
A eliminação de barreiras físicas permitiu que os ambientes sociais se organizassem em sequência contínua: sala de TV, jantar, cozinha e quintal. Essa integração não se dá apenas pela ausência de paredes, mas pela coerência entre materiais, alturas e proporções. “O piso em granilite branco no térreo, por exemplo, unifica visualmente os espaços, enquanto a estrutura em concreto aparente percorre o ambiente como um fio condutor”, destaca.
Fachada que filtra a luz

Antes opaca e pouco convidativa, a fachada da residência é marcada por cobogós encaixilhados que desenham a identidade visual do projeto antes mesmo de se adentrar o lar. Eles funcionam como filtros de luz e ventilação, permitindo que o interior receba iluminação natural constante, sem exposição direta.
Sala de TV intimista

Invertendo a lógica da maioria das residências, Paulo e Mariana decidiram que a sala de TV seria mais contida e quase introspectiva em relação à cozinha e aos outros cômodos. “Muita gente estranha a sala ser menor, mas ela cumpre exatamente o que desejamos: um lugar para ver TV e só. Já a cozinha… é onde tudo acontece”, acentua.
De acordo com Paulo, essa redução não é uma limitação, mas uma escolha consciente do casal. Ao compactar esse ambiente, o projeto libera área para os espaços que realmente estruturam o cotidiano da família e reforçam o propósito de uma casa desenhada para o uso real.
O melhor da casa: a cozinha
Parece clichê dizer que a cozinha é o coração da casa, mas, na residência da família Tripoloni, esse cômodo é o verdadeiro epicentro do projeto. Desenhada em formato de “U”, com uma península generosa, a cozinha organiza fluxos e amplia possibilidades de uso com um layout que permite que várias pessoas cozinhem simultaneamente.

“Usamos, ao mesmo tempo, várias bocas do cooktop, e a península nos proporciona momentos únicos da vida cotidiana. A alimentação é um elo para nossas conversas e risadas, em um espaço onde queremos eternizar essas lembranças afetivas para as crianças”, conta Paulo.
O arquiteto também destaca que a cozinha carrega muito do olhar organizado da esposa, Mariana, que atua como cozinheira em um negócio próprio. Por isso, o ambiente foi concebido não apenas para a finalidade básica, mas para valorizar o ritual e apreciar cada prato preparado.
Enquanto a coifa industrial garante conforto ao eliminar odores e fumaça, o frontão revestido com pastilhas hexagonais de porcelana acetinada adiciona delicadeza à composição. Já a marcenaria em MDF Guararapes Carvalho Hanover aquece visualmente o ambiente, equilibrando a presença marcante da lâmina azul-profundo da Fórmica, aplicada em planos estratégicos.

Pela conexão com os demais ambientes, a sala de jantar também conversa com a parede amarela e com o verde que invade a casa a partir do quintal. “Quem me conhece sabe o quanto eu sou apaixonado por azul. Claro que ele precisava estar presente justamente no coração da casa”, declara Paulo.
Com circulação generosa, soluções acessíveis e previsão para adaptações futuras — como a instalação de elevador —, o projeto incorpora uma visão de longo prazo. Peças de design, como a luminária Nalu, da Arteide, e itens industriais do Galpão Atemporal, complementam a narrativa com sutileza. “É uma casa sem frescuras e com liberdade para usar, viver e aproveitar cada espaço em sinergia com as próximas fases da vida”, avalia.

A cozinha se abre para um extenso deck em madeira cumaru que, por sua vez, estabelece uma base acolhedora para o magnífico paisagismo da área externa. Nas laterais, o banco em peroba-rosa reaproveitada resgata a memória da construção original.
Com orientação técnica do cunhado do arquiteto, o engenheiro agrônomo Peterson Batista, foi possível inserir diversas árvores frutíferas como jabuticabeira, pitangueira e macieira, além de preservar espécies preexistentes, como a palmeira-fênix. Essas camadas estabelecem uma relação com o tempo, permitindo acompanhar ciclos, colheitas e transformações. “É um espaço que muda muito. Quando chove, por exemplo, sentimos uma atmosfera de fazenda”, conta. Sob o deck, a solução técnica organiza o escoamento das águas pluviais e oculta a infraestrutura, mantendo a leitura limpa do espaço.

Subindo as escadas…
Solta das paredes, ela é mais do que um elemento funcional: trata-se de uma verdadeira escultura executada em concreto aparente, que reforça a linguagem industrial do projeto e dialoga com os demais elementos estruturais mantidos à mostra. “A ideia nunca foi esconder a estrutura, mas apresentá-la como parte do desenho da casa”, conta Paulo Tripoloni.

O arquiteto relembra que, na primeira visita ao imóvel, a escassez de luz natural foi imediatamente percebida como um dos maiores desafios. Curiosamente, foi justamente esse aspecto que se tornou o protagonista após a reconstrução. Ao longo do dia, a incidência solar transforma a atmosfera dos ambientes, intensificando cores e revelando texturas.
Para alcançar esse resultado, o projeto incorporou rasgos estratégicos nas paredes, janelões generosos (alguns com até 3,30 x 1,85 m), chaminés de ventilação e cobogós na cobertura — decisões que asseguram circulação cruzada de ar e iluminação natural abundante.
Atelier de arquitetura
No espaço criativo do Atelier Paulo Tripoloni, o arquiteto equilibra técnica e inspiração. Organizado com uma grande estação de trabalho para uma equipe de quatro pessoas, o local ganhou prancheta de desenho e uma pequena biblioteca, enquanto caixilhos acústicos garantem a concentração. “É um lugar para pensar, desenhar e compartilhar. Assim, mantenho o equilíbrio entre a vida profissional e o fato de estar perto da família”, compartilha.
Relaxamento na suíte do casal

A sinergia entre o cru e o essencial define o equilíbrio da suíte principal. Aqui, o projeto desacelera. A materialidade mantém a coerência com o restante da casa, porém ganha nuances mais acolhedoras, como o piso em cimento queimado (executado no contrapiso), folhas de porta em madeira tauari e armário em compensado sumaúma.
Terraço como refúgio
No último pavimento, o terraço se apresenta como um respiro urbano. Devido a restrições legais, o espaço foi recuado, o que se tornou uma vantagem: a área recebe o sol da tarde voltada para as faces norte e oeste. A vista revela marcos da cidade, como o Obelisco e o Instituto Biológico, enquanto o pergolado, que receberá parreiras, promete uma ambiência ainda mais acolhedora. “Esse foi um espaço pensado para ser um estar, um lazer, onde gostamos de nos reunir para desfrutar a vista”, finaliza o arquiteto.













































