“Você pode tirar um pinguim da Antártida e criá-lo no Rio de Janeiro. Ele vai sobreviver, mas vai custar supercaro e ele certamente não vai ser feliz”, comenta a paisagista Juliana Aschwanden-Vilaça, autora de um dos livros de referência sobre flora no Brasil, o Plantas Tropicais: Guia Prático para o Paisagismo Sustentável (Editora Senac), logo no começo da nossa conversa. “Da mesma forma, eu não vou pegar uma planta dos Alpes Suíços e plantar em Ubatuba; lógico que não vai dar certo. ”
As plantas estão em alta. Conceitos como a biofilia aparecem com frequência em listas de tendências, e nossas pautas com dicas de jardinagem no Casa.com.br e na Casa CLAUDIA sempre batem recordes de acessos.
“Nas grandes cidades, principalmente, as pessoas se distanciam muito da natureza. Mas o ser humano, no final das contas, é um animal. Somos animais. Não adianta fugir, precisamos dessa conexão”, pontua Juliana sobre a busca recente pelo verde. Entretanto, quando a paisagista fala sobre a irracionalidade das espécies “estrangeiras” adquiridas por modismo, fica evidente que, em meio a posts bonitos de #urbanjungle no Instagram, o paisagismo acaba perdendo seu potencial e propósito, que vão muito além do ornamental.
As plantas

O que pensamos antes de começar um jardim? Claro que disponibilidade de luz, tipo de solo e frequência de rega são os fatores que vêm primeiro à mente. E quanto às espécies? Provavelmente escolhemos as mais bonitas, as mais fáceis de cuidar ou aquela planta que viralizou nas redes.
Só que a jardinagem, por mais prazerosa que seja, pode e deve ser pensada para além do hobby. Jardins, mesmo que pequenos, fazem parte do ecossistema onde vivemos. Sendo assim, têm funções que transcendem o passatempo: eles podem alimentar a fauna local, ajudar a flora nativa e colaborar com os biomas — ou, caso mal planejados, interferir negativamente neles.
Juliana levanta um ponto interessante que por vezes esquecemos: plantas são seres vivos. “Elas também têm o direito de viver corretamente”. Mesmo em um apartamento, onde a relação das espécies entre si e com o entorno parece menos óbvia, ela ainda acontece.

A paisagista compartilha uma história sobre dois Ficus em sua sala. No começo, nenhum deles se desenvolvia bem, mas, depois que foram colocados lado a lado, começaram a prosperar. Ela conta que pensou, num primeiro momento: “Que romântico, uma planta gostou da companhia da outra”. Entretanto, percebeu em seguida que se tratava de uma disputa: ambas estavam competindo por sol e nutrientes.
Essa pequena anedota reforça a questão: se as plantas concorrem dentro de um mesmo cômodo, imagine em áreas maiores? É por isso que o risco de espécies exóticas invasoras é tão grande. Uma planta trazida de fora, sem os predadores ou meios de controle presentes em seu ambiente original, pode acabar sufocando a mata nativa.
O eucalipto é um grande exemplo desse fenômeno. De crescimento acelerado, ele não serve como alimento para a fauna da América do Sul e consome grandes quantidades de água. Se plantado em área de mata original, dominará o espaço. Por isso, o manejo de florestas de eucalipto para papel e MDF precisa ser rigorosamente monitorado.
Os jardins
Você deve estar se perguntando: “Mas eu não vou trazer uma floresta para a minha casa! E, no meu jardim, as plantas ficam em vasos”. É um raciocínio justo, mas equivocado. Ainda que estejam em vasos, o ciclo de vida das plantas é complexo. Vento, insetos e pequenos animais carregam sementes e pólen. Ou seja: jardins residenciais influenciam, sim, o ecossistema local.
“Não vejo como ter uma casa que não dialogue com esse todo, mas vejo também que uma casa pode ser muito prejudicial ao conjunto”, aponta Marcelo Andreoli, professor de Urbanismo da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
“Por exemplo, temos muitos alfeneiros aqui. Aquela árvore da frutinha roxa, sabe? É uma exótica invasora que se reproduz excessivamente e inclusive mata espécies locais. Qual o benefício real disso? É muito pouco”, afirma. A escolha de espécies nativas — ou exóticas não invasoras — faz do jardim uma célula do bioma natural, colaborando com a comunidade. Um jardim que conversa com seu entorno é um instrumento de sustentabilidade.
O paisagismo e a agrofloresta

Pensando nas relações de coexistência, surge o conceito da agrofloresta. “Ela é uma tecnologia ancestral que nossos povos indígenas e quilombolas já praticavam. Por meio dela, constrói-se uma relação dialógica com a floresta, entendendo que, para a floresta existir, precisa existir o ser humano, e vice-versa”, explica o professor.
A agrofloresta é um manejo de áreas nativas que alcança uma biodiversidade intensa por meio da intervenção humana. “A ideia é que, dentro de uma composição vegetal local, consigamos produzir diferentes tipos de arranjos produtivos. Conciliamos a necessidade humana com a da floresta”, diz Marcelo.
Segundo ele, é possível “acelerar ou dificultar processos”. Com podas e clareiras estratégicas, por exemplo, melhora-se o desenvolvimento de algumas espécies graças à entrada de sol, “mas sempre dialogando com a sucessão da regeneração florestal, respeitando a região em que ela está sendo instalada”, completa.
Com uma abordagem multidisciplinar, a ideia da agrofloresta é de dar um boost no ecossistema local, aproveitando e preservando suas características originais simultaneamente. Para o professor, é uma das saídas para um futuro viável, tanto no âmbito ambiental quanto humano e social: “É a única via que pensa uma relação alimentar um pouco mais justa e honesta”.
PANCs: outros jeitos de pensar na comida

Um grande exemplo do paisagismo como agente de transformação social são as PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais). Segundo Valdely Ferreira Kinupp, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Amazonas (IFAM) e autor do livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANC) no Brasil”, em coautoria com Harri Lorenzi, publicado pelo Instituto Plantarum, PANC é “tudo aquilo que não faz parte da alimentação corriqueira das pessoas e não está disponível nos mercados comuns”.

Você já comeu beldroega, caruru, bredo ou serralha? Essas são algumas das mais comuns, mas, com a homogeneização da agricultura e o plantio em larga escala, essas espécies caíram no esquecimento.
“A partir da Revolução Verde e da quimificação da agricultura, o foco virou o monocultivo. Esqueceram a diversidade, que hoje tentamos resgatar por meio da agroecologia e do movimento PANC”, explica Valdely. Como existem PANCs adaptadas a todos os climas do Brasil, elas podem ser plantadas com facilidade. Esse resgate é uma ferramenta poderosa contra a insegurança alimentar.

“A ideia não é necessariamente substituir, é somar, diversificar. Não vamos deixar de comer maçã, mas podemos incluir o butiá, o jerivá, o pajurá, o mapati, a sorva, a pitanga do cerrado, a pitanga da Amazônia, a pitanga da Mata Atlântica, a pitanga do Pampa, o guamerim, a uvaia, o sapoti, a sapota, o abiu, a abiurana, e tantas outras coisas”, completa.
Existir junto

O paisagismo urbano traz benefícios óbvios, como controle de temperatura e umidade. Porém, para que ele possa ser parte integrante da estrutura social complexa que são as cidades, ele precisa ser encarado com profundidade. “Ao longo de séculos, constrói-se uma identidade de paisagem que é um valor social, um atributo cultural”, explica Marcelo.
Da agrofloresta e das PANCs até os pequenos jardins domésticos, a ideia é estreitar os laços com o todo. “O paisagismo local ensina sobre coexistência, sobre estar com outros seres e vê-los. Essa é uma boa oportunidade, inclusive. Poder ver outros seres em seu jardim abre um olhar muito mais bonito para todas as nossas relações, não é? ”, finaliza.












































