Com rotinas cada vez mais corridas e permeadas por telas, faz-se necessário que a arquitetura forneça lugares para parar. É nesse contexto que balanços, redes, chaises e outros móveis que incorporam movimento ganham espaço em projetos residenciais e comerciais. Mais do que acrescentar um elemento visual à decoração, eles ajudam a criar uma atmosfera de desaceleração e convidam a permanecer.

A mudança acompanha uma nova relação com as áreas externas. Varandas, jardins, espaços gourmet e áreas de piscina deixaram de ser ambientes usados apenas para receber convidados e passaram a funcionar como extensões da casa, inclusive para momentos individuais de descanso, leitura, contemplação ou até trabalho.

Cadeira suspensa preta com almofadas brancas em um deck de madeira, rodeada por folhagens verdes e uma parede de pedras, com um tapete de juta e uma mesa de madeira rústica com xícara à direita
<span class=”hidden”>–</span>Mavie Móveis/Divulgação

“Tem muito a ver com o momento em que a gente vive. As pessoas passam o dia inteiro aceleradas, em frente a telas, e a casa — e principalmente a área externa — virou o lugar onde elas querem desligar. O movimento tem uma coisa muito instintiva: aquele balanço suave acalma, desacelera a respiração e convida a ficar”, explica Tibeti Caviglioni Daniel, CEO da Mavie Móveis.

Apê tem painéis de marcenaria lisos e muxarabi em Freijó envelhecido. Projeto de Solange Calio.
Projeto de Solange Calio.Denilson Machado, MCA Estúdio/Divulgação
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Segundo ela, o sucesso desse tipo de mobiliário também dialoga com a memória afetiva brasileira. “Não é à toa que a rede sempre esteve na nossa cultura, na varanda de casa, na praia. O que mudou é que isso saiu do rústico e entrou no projeto. Hoje, o arquiteto pensa o balanço ou a estrutura suspensa como parte da arquitetura, não como um acessório.”

Conforto que começa na engenharia

Balanço suspenso verde-água com assento de cordas, ao lado de um vaso de planta verde, sobre um deck de madeira. Ao fundo, piscina, coqueiros e área de lazer com sofás brancos e guarda-sóis.

Mais do que um design bonito, em um balanço, estrutura, fixação, distribuição de peso, ergonomia e amplitude do movimento precisam ser considerados desde o desenvolvimento.

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Antes e depois: apartamento sai do genérico e ganha ilha de cozinha em volta de pilar e paredes cor-de-rosa. Projeto de Sertão Arquitetos. Na foto, Quarto com paredes em dois tons, verde-claro no teto e parte superior, e terracota na parte inferior. Uma cadeira suspensa de macramê terracota com almofada branca está à esquerda, ao lado de uma janela. À direita, uma cama branca e uma mesa de cabeceira redonda de vime com livros. Na parede, uma prateleira de madeira com objetos decorativos e um painel de macramê branco. O chão é de madeira clara
Projeto de Sertão Arquitetos.Leila Viegas/Divulgação

“Numa peça que se movimenta, não tem como esconder nada. Uma cadeira parada perdoa pequenos erros; um balanço não. O desenvolvimento começa pela estrutura, pelo ponto de fixação, pela distribuição de peso e pelo tipo de movimento que queremos, se é um balanço curto, mais contemplativo, ou um movimento mais amplo”, explica.

Cadeira suspensa de vime marrom com almofadas brancas, pendurada em um pergolado de madeira escura. Ao redor, um jardim exuberante com folhagens verdes e flores vermelhas, e um piso de madeira clara. Ao fundo, casas e árvores sob um céu nublado
<span class=”hidden”>–</span>Mavie Móveis/Divulgação
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Nas áreas externas, a escolha dos materiais também ganha importância. Estruturas em alumínio, por exemplo, combinam leveza e resistência, enquanto cordas náuticas, fibras sintéticas e tecidos de alta performance podem contribuir para a durabilidade em ambientes expostos ao sol, à umidade e às variações climáticas.

“A estética vem junto, mas eu sempre digo que bonito é o mínimo. Se a pessoa não quiser ficar ali uma tarde inteira, o projeto não cumpriu o papel”, resume Tibeti.

Terraço de cobertura tem pergolado inclinado e jardineira contínua


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Personalização: o móvel precisa se adaptar ao projeto

Cadeira suspensa de vime preto com almofadas escuras, pendurada em um pergolado de madeira rústica. Ao redor, folhagens verdes exuberantes, como costela-de-adão e samambaias. No chão, um tapete redondo de fibra natural sobre um piso de pedras claras, com um deck de madeira à direita e bromélias coloridas à esquerda. O ambiente é um jardim tropical iluminado pelo sol
<span class=”hidden”>–</span>Mavie Móveis/Divulgação

A valorização de experiências também fortalece outra tendência do design contemporâneo: a personalização. Em vez de simplesmente escolher um produto pronto, arquitetos e consumidores buscam soluções que conversem com a arquitetura, a paleta de cores e a proposta de cada ambiente.

Lavabo de apartamento tem papel de parede Gucci e torneira que vem do forro. Projeto de TT Interiores.
Projeto de TT Interiores.Maura Mello e Clozi/Divulgação
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“A gente costuma dizer que o projeto não precisa se encaixar em um catálogo; o móvel é que precisa se encaixar no projeto. Uma mesma peça pode ter linguagens completamente diferentes dependendo da trama, da cor da corda, do tecido e da proporção”, afirma.

Casa de campo tem piscina semiolímpica e oito suítes elegantes. Projeto de Studio DWG. Na foto, varanda coberta, cadeira de balanço.
Projeto de Studio DWG.Favaro Jr Fotografia/Divulgação

A diferença é ainda mais evidente quando se compara o uso residencial ao de hotéis e resorts. Em uma casa, o móvel pode criar um canto íntimo, associado à rotina e ao descanso. Na hotelaria, além do conforto, precisa suportar uma utilização mais intensa e diferentes condições de exposição.

Apê contemporâneo de 90 m² tem balanço de acrílico na sala, jardim vertical e boiseries. Projeto de RMV Interiores.
Projeto de RMV Interiores.Mariana Orsi/Divulgação

“Na casa, a peça é muito pessoal: é o cantinho de alguém, tem a ver com rotina e afeto. No hotel e no resort, ela precisa ser uma experiência. Muitas vezes é o lugar que o hóspede fotografou e que vira memória da viagem, mas, ao mesmo tempo, precisa aguentar uso intenso, sol, cloro, maresia e pessoas de diferentes tamanhos todos os dias.”

O novo luxo pode ser simplesmente parar

Arquiteta explica como deve ser feita a instalação de poltronas suspensas e balanços. Projeto de Rosangela Pena Arquitetura.
Projeto de Rosangela Pena Arquitetura.Sidney Doll/Divulgação

Por trás da valorização dos móveis com movimento existe uma mudança mais ampla no comportamento: a busca por ambientes que não sejam apenas bonitos ou funcionais, mas que também ofereçam sensações.

A área externa, nesse cenário, ganha status de cômodo da casa e passa a ser ocupada ao longo de todo o dia. “A área externa deixou de ser um espaço de evento, aquele lugar que só era usado no churrasco do fim de semana, e virou um cômodo de verdade, usado no dia a dia. As pessoas querem tomar café ali, ler, trabalhar um pouco, ver o fim de tarde”, observa Tibeti.

Hall de entrada revestido com muxarabis iluminados são destaque em apartamento. Projeto de Zalc Arquitetura. Na foto, varanda, jardim vertical.
Projeto de Zalc Arquitetura.Alexandre Disaro/Divulgação

E, junto com os grandes espaços de convivência, surge uma demanda por pequenos lugares de pausa.

“O arquiteto já não pensa só na mesa grande para dez pessoas. Ele pensa também em um lugar para uma pessoa parar. É aí que essas soluções com movimento entram muito bem.”

Cobertura tem sauna com paredes de vidro e área gourmet com balanços. Projeto de Vivian Reimers. Na foto, sala de estar integrada, dois balanços suspensos.
Projeto de Vivian Reimers.Luiza Schreier/Casa.com.br

Para a executiva, é justamente nessa simplicidade que está o valor do mobiliário contemporâneo. “Móvel não é só objeto, é o cenário de momentos que valem a pena. E muitas vezes o momento que mais vale a pena é justamente o mais simples: sentar, balançar e olhar para o jardim.”

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