Com rotinas cada vez mais corridas e permeadas por telas, faz-se necessário que a arquitetura forneça lugares para parar. É nesse contexto que balanços, redes, chaises e outros móveis que incorporam movimento ganham espaço em projetos residenciais e comerciais. Mais do que acrescentar um elemento visual à decoração, eles ajudam a criar uma atmosfera de desaceleração e convidam a permanecer.
A mudança acompanha uma nova relação com as áreas externas. Varandas, jardins, espaços gourmet e áreas de piscina deixaram de ser ambientes usados apenas para receber convidados e passaram a funcionar como extensões da casa, inclusive para momentos individuais de descanso, leitura, contemplação ou até trabalho.

“Tem muito a ver com o momento em que a gente vive. As pessoas passam o dia inteiro aceleradas, em frente a telas, e a casa — e principalmente a área externa — virou o lugar onde elas querem desligar. O movimento tem uma coisa muito instintiva: aquele balanço suave acalma, desacelera a respiração e convida a ficar”, explica Tibeti Caviglioni Daniel, CEO da Mavie Móveis.

Segundo ela, o sucesso desse tipo de mobiliário também dialoga com a memória afetiva brasileira. “Não é à toa que a rede sempre esteve na nossa cultura, na varanda de casa, na praia. O que mudou é que isso saiu do rústico e entrou no projeto. Hoje, o arquiteto pensa o balanço ou a estrutura suspensa como parte da arquitetura, não como um acessório.”
Conforto que começa na engenharia

Mais do que um design bonito, em um balanço, estrutura, fixação, distribuição de peso, ergonomia e amplitude do movimento precisam ser considerados desde o desenvolvimento.

“Numa peça que se movimenta, não tem como esconder nada. Uma cadeira parada perdoa pequenos erros; um balanço não. O desenvolvimento começa pela estrutura, pelo ponto de fixação, pela distribuição de peso e pelo tipo de movimento que queremos, se é um balanço curto, mais contemplativo, ou um movimento mais amplo”, explica.

Nas áreas externas, a escolha dos materiais também ganha importância. Estruturas em alumínio, por exemplo, combinam leveza e resistência, enquanto cordas náuticas, fibras sintéticas e tecidos de alta performance podem contribuir para a durabilidade em ambientes expostos ao sol, à umidade e às variações climáticas.
“A estética vem junto, mas eu sempre digo que bonito é o mínimo. Se a pessoa não quiser ficar ali uma tarde inteira, o projeto não cumpriu o papel”, resume Tibeti.
Personalização: o móvel precisa se adaptar ao projeto

A valorização de experiências também fortalece outra tendência do design contemporâneo: a personalização. Em vez de simplesmente escolher um produto pronto, arquitetos e consumidores buscam soluções que conversem com a arquitetura, a paleta de cores e a proposta de cada ambiente.

“A gente costuma dizer que o projeto não precisa se encaixar em um catálogo; o móvel é que precisa se encaixar no projeto. Uma mesma peça pode ter linguagens completamente diferentes dependendo da trama, da cor da corda, do tecido e da proporção”, afirma.

A diferença é ainda mais evidente quando se compara o uso residencial ao de hotéis e resorts. Em uma casa, o móvel pode criar um canto íntimo, associado à rotina e ao descanso. Na hotelaria, além do conforto, precisa suportar uma utilização mais intensa e diferentes condições de exposição.

“Na casa, a peça é muito pessoal: é o cantinho de alguém, tem a ver com rotina e afeto. No hotel e no resort, ela precisa ser uma experiência. Muitas vezes é o lugar que o hóspede fotografou e que vira memória da viagem, mas, ao mesmo tempo, precisa aguentar uso intenso, sol, cloro, maresia e pessoas de diferentes tamanhos todos os dias.”
O novo luxo pode ser simplesmente parar

Por trás da valorização dos móveis com movimento existe uma mudança mais ampla no comportamento: a busca por ambientes que não sejam apenas bonitos ou funcionais, mas que também ofereçam sensações.
A área externa, nesse cenário, ganha status de cômodo da casa e passa a ser ocupada ao longo de todo o dia. “A área externa deixou de ser um espaço de evento, aquele lugar que só era usado no churrasco do fim de semana, e virou um cômodo de verdade, usado no dia a dia. As pessoas querem tomar café ali, ler, trabalhar um pouco, ver o fim de tarde”, observa Tibeti.

E, junto com os grandes espaços de convivência, surge uma demanda por pequenos lugares de pausa.
“O arquiteto já não pensa só na mesa grande para dez pessoas. Ele pensa também em um lugar para uma pessoa parar. É aí que essas soluções com movimento entram muito bem.”

Para a executiva, é justamente nessa simplicidade que está o valor do mobiliário contemporâneo. “Móvel não é só objeto, é o cenário de momentos que valem a pena. E muitas vezes o momento que mais vale a pena é justamente o mais simples: sentar, balançar e olhar para o jardim.”












































