Esta reforma nasceu com a missão de tornar um apartamento um refúgio urbano para uma família de Curitiba, no Paraná. O sonho partiu de um jovem casal de arquitetos com uma filha pequena e à espera do segundo filho, com o objetivo de transformar o espaço de 180 m² em um lar pensado para desacelerar, criar presença e valorizar o cotidiano.

A planta original do imóvel, compartimentada, já não respondia às dinâmicas da família e, de acordo com Camille Scopel, uma das arquitetas fundadoras do Spuma Studio, escritório responsável pelo projeto, o principal gesto da reforma foi abrir e integrar a área social.

“Conectamos o living à cozinha, que antes era isolada, e a transformamos no núcleo da casa. A ideia foi construir um espaço que acolhesse a rotina real da família, permitindo convivência, fluidez e permanência, com uma proposta que valoriza a luz natural, a integração dos ambientes e uma paleta neutra que convida ao silêncio e à contemplação”, explica Camille.

A cozinha, desenhada a partir do uso cotidiano, organiza os fluxos ao redor de uma ilha central. O mármore de veios marcantes estabelece contraste com a marcenaria branca e depurada, criando uma composição equilibrada entre presença e leveza.

Mesmo sem varanda, o apartamento estabelece uma relação direta com o exterior. Amplas esquadrias em vidro diluem os limites e trazem o verde para dentro. Nesse ponto, uma mesa redonda e um banco linear, desenhados pelos arquitetos moradores, configuram um espaço de pausa, um lugar onde o tempo desacelera entre cafés, conversas e a passagem da luz.

“A madeira clara percorre todo o projeto, revestindo pisos e painéis e criando unidade visual. No living, o mobiliário reforça a vocação do espaço para receber: um sofá amplo, de desenho linear, organiza a área de estar, enquanto peças de caráter escultórico introduzem identidade”, ressalta Camille. Já a poltrona Moleca, de Sérgio Rodrigues, e a Bo, de Giacomo Tomazzi, trazem presença e identidade.

O projeto aposta na força dos materiais naturais e em uma paleta neutra para construir uma atmosfera serena. A parede em ripas de concreto, com paginação horizontal, adiciona textura e profundidade, funcionando como um plano contínuo que estrutura o ambiente.

Na área íntima, o conceito se traduz em suavidade. A suíte combina texturas naturais, iluminação difusa e elementos que filtram a luz, criando um espaço de recolhimento.


“A neutralidade cromática amplia a sensação de calma e permite que luz, volumes e sombras assumam protagonismo”, explica a arquiteta.

As obras de arte aparecem como intervenções pontuais, inserindo novas camadas de leitura ao projeto. Distribuídas pelo apartamento, elas dialogam com os vazios, com a luz natural e com a rotina dos moradores, construindo uma narrativa que mistura memória, afeto e identidade.
Uma obra de Hugo Mendes, despretensiosa e potente, ganha destaque na composição. A diversidade de materiais e linguagens se evidencia nos planos verticais, como nos “Espelhos Esféricos Selfish”, de Bruno de Carvalho, e nas fotografias da série “Loading”, de Livia Fontana.

A estante do living, delicada e quase etérea, abriga peças carregadas de memória e afeto. Algumas foram presentes, outras descobertas ao longo do tempo. Entre contrastes e afinidades, os objetos se equilibram: a escultura de Amilcar de Castro, a imagem de São Francisco de Assis em barro e o vaso Nuvem Escorrido, do Studio Pedrazzi, compõem uma narrativa interessante.

“Há, em todo o projeto, uma busca pelo essencial, não como ausência, mas como curadoria. Um espaço que não apenas abriga, mas desperta percepção, onde viver é também observar, sentir e compor. O espaço valoriza o respiro, o intervalo e a contemplação, transformando a casa em um ambiente onde arquitetura, design e vida cotidiana se entrelaçam de forma natural”, completa Camille.











































