Taghazout: você precisa conhecer essa praia paradisíaca no Marrocos (Foto: Oliver Pilcher)

 

Na pequena Taghazout, na argilosa costa oeste do Marrocos, a vida tem um ritmo imutável. Todo amanhecer, o chamado para a oração atravessa as casas que se erguem desalinhadamente na orla. As sílabas baixas e trêmulas do muezim acordamos cães de rua, cujos latidos ressoam pelos becos estreitos onde paredes em tons pastéis exibem murais psicodélicos de surfe. Os camelos da praia acordam e se levantam de maneira estranhamente robótica. Pescadores partem em barcos de madeira idênticos, seguidos – em dias sem ondas – por jovens munidos de nadadeiras e arpões.

 

A convocação à prece também desperta surfistas e iogues, a nova força vital da cidade. Tapetes são desenrolados e, nos terraços, os professores de ioga fazem a pose da cobra, essencialmente a mesma posição inicial no surfe. Enquanto isso, a linha 32, rebatizada de Ônibus do Surfe, chega de Agadir, cidade a 23 quilômetros de Taghazout, e descarrega uma leva de marroquinos com cabelos emaranhados, pranchas e sonhos que seus pais nunca tiveram. Eles embarcam em vans e carros velhos com destino a pontos batizados de Killers, Donkeys, Draculas ou Boilers; Banana Point, Camel ou Anchor.

Taghazout: você precisa conhecer essa praia paradisíaca no Marrocos (Foto: Oliver Pilcher)

 

Estive aqui pela primeira vez há seis anos e me apaixonei pelos ritmos do lugar. Nas longas tardes no terraço do restaurante Panorama, o gerente me cumprimentava com um aperto de mão, vestindo uma camiseta que dizia “Trabalhar é chato, vá surfar”. Quando voltei este ano, no mesmo local, encontrei apenas escombros. De sua laje abandonada, avisto a baía de Taghazout, uma longa praia ao sul, com hotéis de redes internacionais e construções com paredes brancas.

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Taghazout: você precisa conhecer essa praia paradisíaca no Marrocos (Foto: Oliver Pilcher)

 

Em uma manhã, pego carona com Yassin Bellqber, de 26 anos, considerado o melhor surfista da região, rumo a um cruzeiro pela árida costa avermelhada. Decepcionado com a ausência de ondas, ele começa a me contar sua história, que de certa forma se assemelha à trajetória recente de Taghazout. Ele cresceu em uma casa simples, de frente para Mysteries, um recife ao norte de Anchor Point, onde os surfistas estacionavam suas vans. O trabalho de Yassin era vender comida berbere feita por sua mãe. Ele aprendeu a falar palavrão em seis idiomas e dizia que seus sfenjs (espécie de donut magrebino) de banana ou de canela dariam energia aos surfistas e trariam ondas dignas de deuses lunares. “Se os fizesse rir, poderia conseguir uma venda.”

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Taghazout: você precisa conhecer essa praia paradisíaca no Marrocos (Foto: Oliver Pilcher)

 

Quando tinha 12 anos, um australiano quebrou a quilha de sua prancha em um dia de maré alta. Yassin ofereceu seis sfenjs pela prancha quebrada, e aprendeu a surfar do
mesmo modo como aprendeu a vender – instintivamente. Entre seus fregueses estavam Ben O’Hara e Ollie Boswell, que haviam chegado no final dos anos 1990 e se tornado frequentadores de Mysteries.



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Em 2003, abriram o Surf Maroc, o primeiro acampamento de surfe de Taghazout, reformando uma série de velhas residências de pescadores, acrescentando redes e pufes. Foi o pioneiro entre os quase 30 da cidade, oferecendo ceias, ioga na cobertura e aulas com surfistas locais. A mouage, a quarta propriedade do Surf Maroc, é uma das poucas inaugurações dos últimos tempos que deram um novo ar ao local. Juntamente com a elegante e excêntrica Munga Guesthouse (com direito a restaurante no terraço e bar de madeira rústica), ajudou a atrair um público mais maduro de amantes de design. Enquanto o SurfMaroc prosperava, Ben e Ollie notaram que o menino também evoluía nas ondas.

Taghazout: você precisa conhecer essa praia paradisíaca no Marrocos (Foto: Oliver Pilcher)

 

Compraram pranchas para ele, arcando com os custos de sua participação em competições e pagando um salário justo para ensinar surfe para clientes mais abastados. Uma
delas era a bisneta da escultora Barbara Hepworth, de Londres. Começaram a namorar e o casal acabou de voltar de uma viagem de esqui nos Alpes. Dizem que a vila de Imsouane, uma hora ao norte de Taghazout, será o próximo point de destaque da região, e o Surf Maroc já aposta em um novo acampamento. Lá, há um farol rosa pastel e um restaurante com mesas de plástico no qual pescados vão do mar direto à grelha. O resto é mais rústico e relaxado do que Taghazout – redes de pesca, grafites rabiscados, reggae marroquino suave.

Taghazout: você precisa conhecer essa praia paradisíaca no Marrocos (Foto: Oliver Pilcher)

 

Naquela noite, fui à piscina azul klein do Amouage, ouvindo ao fundo o som da banda britânica The xx e conversas sobre mojitos em francês, alemão e inglês. Olhando para Anchor Point, vi um disco de borracha solitário flutuando em direção à praia na penumbra. Perguntei-me se era uma lula, um polvo ou uma ilusão. Naquela noite, fui dormir com os pensamentos na minha onda e sonhei com coisas mais estranhas. Ao nascer do sol, o chamado à oração. E começa tudo de novo.

Taghazout: você precisa conhecer essa praia paradisíaca no Marrocos (Foto: Oliver Pilcher)

 

O ônibus chega e descarrega marroquinos com cabelos emaranhados, pranchas e sonhos que seus pais nunca tiveram”
Taghazout: você precisa conhecer essa praia paradisíaca no Marrocos (Foto: Oliver Pilcher)

 

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