Você já deve ter lido ou escutado sobre a importância de consumir localmente e como isso se tornou ainda mais necessário desde o início da pandemia. Talvez você faça parte daqueles que redobraram os esforços para vender na sua cidade, ou ainda esteja focado em consumir de pequenos produtores da sua vizinhança. Mas se você não se enquadra em nenhuma dessas alternativas, eu te explico porque esse assunto é tão importante.

Por que é tão importante consumir artesanato na sua cidade em tempos de pandemia (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

 

 

Quando me tornei consultora e instrutora do SEBRAE, lá em 2006, havia um dado que me chamava muito a atenção: em 2004, cerca de dois milhões de pessoas viviam de artesanato no Brasil. Esse número, era, para mim, o peso da responsabilidade que recaía sobre os meus ombros e que eu absorvia com o ímpeto de quem queria mudar o mundo – o que continuo querendo diariamente.

Na busca de dados mais atuais, com o auxílio do SEBRAE, me deparei com o crescimento expressivo desse número: hoje estima-se que dez milhões de pessoas estejam envolvidas na cadeia produtiva do artesanato. Dez milhões de pessoas vivendo do que é produzido por mãos que manifestam sonhos, verdades e, principalmente, territórios.

10 milhões de pessoas.

20 milhões de mãos.

Por que é tão importante consumir artesanato na sua cidade em tempos de pandemia (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

 

Os dados são estimados porque existem muitos artesãos atuantes sem nenhum registro que possa somá-los aos bancos de dados nacionais. Quando penso nesse tanto de gente, me questiono: por que o artesanato precisa atravessar o país para ser consumido nos grandes centros? Por que esperamos para consumir artesanato só nas feiras de design? Por que deixamos que o artesão fique tão sem mercado a ponto de precisar da assistência de rifas e leilões para sobreviver?

Em vez de consumirmos, presentearmos ou decorarmos com artesanato, muitas vezes nos encontramos em uma relação vertical, onde doamos dinheiro em forma de ajuda. Tenho certeza de que, para quem produz e tem orgulho do seu trabalho, vender é muito melhor do que ganhar cestas básicas. Para a maioria dos artesãos, a venda é a chancela de que o trabalho é bonito e bom.

Consumir artesanato é derrubar a ideia colonial de que aquele que trabalha com as mãos é inferior e precisa ser ajudado justamente pela sua atividade profissional. Assim como um arquiteto que gosta de arquitetura quer ser remunerado pelo seu trabalho, um artesão que gosta de artesanato quer o mesmo, o reconhecimento do seu trabalho principalmente por meio do consumo. Com base na minha experiência, eu acredito muito mais em caminhos que geram autoestima e autonomia.

Por que é tão importante consumir artesanato na sua cidade em tempos de pandemia (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

 

Vivemos em um país de cultura latente, um território vasto e criativo. Dados de 2014, do IBGE, apontam que 76% dos municípios brasileiros têm produção artesanal, ou seja, provavelmente tem artesanato na sua cidade. O problema é que geralmente temos dificuldade em valorizar o que está perto de nós: a grama do vizinho é sempre mais verde.

Será mesmo? Pode ser que estejamos estigmatizando o artesanato e buscando algo onde não existe, como quando almejamos encontrar cestaria em uma cidade que produz peças de barro. O exercício aqui é olhar com carinho para o nosso lugar. Abrir a janela e apreciar a paisagem que se mostra no horizonte.

Reestabelecida esta conexão entre você e o seu lugar, preparei dicas pra facilitar a procura, independente da região do país em que você esteja.

> Procure a Casa do Artesão da sua cidade. Geralmente subsidiadas pelas prefeituras, são sedes de associações ou grupos de artesãos onde os produtos locais estão à venda. Os próprios artesãos fazem a curadoria de produtos, o que garante uma grande variedade de peças e técnicas, muitas delas com viés territorial;

> Busque o SEBRAE ou qualquer outra instituição que apoie o artesanato na sua região. Estas entidades podem indicar nomes de artesãos e associações locais;

> Descubra sua vizinhança. Talvez você não saiba que tem uma bordadeira na sua rua, que no outro quarteirão mora um carpinteiro de mão cheia ou que aquele tapete de crochê que você quer para sua casa pode ser feito pela avó da sua vizinha. O artesão trabalha quietinho, escondido e muitas vezes esquece de contar sobre as maravilhas que faz. Espalhe a notícia de que busca produtos artesanais no seu bairro. Sorria e aguarde.

Por que é tão importante consumir artesanato na sua cidade em tempos de pandemia (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

 

O consumo local aumenta a autonomia e a saúde das comunidades, bairros, cidades e, em uma escala maior, do próprio país. Quanto maior a demanda, mais o artesão se aprimora produzindo, vendendo, ampliando sua rede, espalhando o fruto de suas mãos. E falo aqui do artesanato brasileiro produzido de norte a sul, resultado único e exclusivo da atuação humana no território. Puro e simples e, por isso, que é tanto, valioso.

Em tempos de pandemia, consumir o que o vizinho produz amplia a força local, fazendo com que todos cresçam e se desenvolvam juntos nesta nova conformação da sociedade. Temos 20 milhões de mãos ativas espalhadas por esse Brasilzão afora. Vamos fazer a nossa parte?

 

*Nicole Tomazi aprendeu bordado, crochê e tricô com sua avó, quando era criança. O forte vínculo com o território, a cultura local, a ancestralidade e o feminino são a base do seu trabalho e da sua pesquisa pessoal. No ano de 2007 decidiu atuar junto a grupos de artesãos unindo design e artesanato em suas produções, tornando-se uma voz atuante na área. Seus produtos autorais já foram expostos na Semana de Design de Milão em 2009, 2010, 2012, 2013 e 2015, sendo finalista do Salone Satellite por duas vezes, apresentando ao mundo o artesanato brasileiro em suas criações. Ganhadora de prêmios como Casa Vogue Design e Planeta Casa, destaca-se por unir teoria e prática, pesquisando incansavelmente maneiras de valorizar a cultura do trabalho manual do país. Formada em Arquitetura e Urbanismo é Mestra em Design com ênfase em Artesanato, Território e Patrimônio e atualmente forma a dupla Nicole Tomazi + Sergio Cabral.

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