ONG constrói casas emergenciais para comunidades

Conheça a Teto, ONG que constroi casas emergenciais e oferece autonomia para comunidades informais (Foto: Teto Brasil/divulgação)

 

“Aqui, a gente tem que gritar, gritar, gritar para tentar ser ouvido, mas o governo sempre finge que não vê. Para virem tirar lixo da comunidade, precisamos queimar pneu, bater panela.” O protesto é de Cleide Faria Santos, líder da comunidade Porto de Areia, em Carapicuíba, SP. De acordo com dados do censo do IBGE de 2010, assim como Cleide, cerca de 11 milhões de pessoas no Brasil vivem em núcleos de povoamento informais, e também custam a ser notadas pela sociedade e instituições governamentais.

 

“Os aglomerados subnormais, como são nomeados, geralmente sofrem com falta de serviços básicos: água, luz e saneamento, além da própria moradia em si”, informa Nina Scheliga, diretora executiva da Teto, organização latino-americana sem fins lucrativos que direciona suas atividades para aliviar essa realidade. Não à toa, alguns dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) estabelecidos pelas Nações Unidas em 2015 – e que devem ser implementados por todos os países do mundo até 2030 – falam exatamente sobre suprir essas faltas: “assegurar a disponibilidade e gestão sustentável da água e saneamento para todos” (objetivo 6); “assegurar o acesso confiável, sustentável,moderno e a preço acessível à energia para todos” (objetivo 7); “tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis” (objetivo 11).

ONG constrói casas emergenciais para comunidades  (Foto: Divulgação)

 

Buscar cumprir algumas dessas metas tem sido o grande esforço da Teto, que nasceu no Chile em 1997 e atua em 19 países – no Brasil, desde 2007. A face mais conhecida de seu trabalho é a construção de residências emergenciais pelo país (a ONG está em cinco estados: BA,MG, RJ, SP e PR) – mais de 3.800 unidades já foram erguidas. A entidade, porém, ainda se empenha no desenvolvimento das coletividades como um todo, capacitando habitantes para que se organizem e transformem seu espaço. “A moradia é o aspecto mínimopara a sobrevivência humana, mas é importante cuidar do entorno e tornar a comunidade participativa, agente das mudanças que ela deseja”, resume Nina.

Conheça a Teto, ONG que constroi casas emergenciais e oferece autonomia para comunidades informais (Foto: Teto Brasil/divulgação)

 

Para realizar este propósito, escutar o outro é essencial. E é isso o que fazemos voluntários da organização. “Eles são como um ombro amigo com quem podemos desabafar”, conta Cleide. “Antes de ajudar nas obras e construir as casas, eles nos ouviram e perguntaram sobre os sonhos de cada um. São ouvidores de necessidades e construtores de sonhos”, poetiza Dyne Ayne de Jesus Ramos, líder da comunidade Che Guevara, em Dias D’Ávila, região metropolitana de Salvador, BA. As escutas acontecem espontaneamente e como parte da ECO (Escutando Comunidades), uma das atividades da Teto em que os voluntários aplicam enquetes com a população para gerar diagnósticos que servem de base para a elaboração de projetos capazes de responder às demandas específicas de cada local. Afora os cerca de 700 voluntários fixos, que agem mais próximos às comunidades, fazendo visitas semanais, a Teto mobiliza em torno de 11 mil pessoas por ano para participar de atividades pontuais – a maioria, universitários.

Conheça a Teto, ONG que constroi casas emergenciais e oferece autonomia para comunidades informais (Foto: Teto Brasil/divulgação)

 

Após graduar-se e arquitetura e urbanismo pela Universidade Tecnológica Federal do Paraná com um trabalho de conclusão de curso voltado à questão de gênero nos espaços urbanos, a curitibana Laís Leão entrou na Teto e se envolveu coma pesquisa e coleta de dados. Em 2017, tornou-se coordenadora de diagnóstico e avaliação na sede paranaense (hoje atua como voluntária em atividades pontuais). “Eu conheci mulheres com vivências muito diferentes da minha, vi de perto outras realidades que compõem a cidade”, conta. Ano passado, Laís levou a experiência adiante: foi indicada como um dos 16 jovens líderes de 2018 pela União Europeia (UE), e apresentou seu trabalho no European Development Days (EDD), congresso organizado pela UE para inspirar soluções inovadoras aos desafios mais prementes  do mundo. “Mesmo não sendo meu lugar de fala, senti a necessidade de abordar o tema da mulher periférica no Brasil. Eu trabalho com elas, eu convivo com elas, eu sou amiga delas. Não podia perder a chance de falar sobre isso num lugar de tanta visibilidade”, justifica, sempre levantando a bandeira de que uma cidade mais  inclusiva para mulheres é uma cidade melhor para todos. No Dia Internacional da Mulher deste ano, Laís lançou o InCities, uma organização para articular e dar suporte a iniciativas que visam criar cidades mais seguras e acessíveis para mulheres. Em maio, recebeu o Prêmio Geração Glamour na categoria Gente que Faz.

ONG constrói casas emergenciais para comunidades  (Foto: Divulgação)

 

Em Salvador, a estudante de economia da Universidade Federal da Bahia, Alice Laurentino, entrou na Tetoem2015 e não quis mais sair. Ela frequenta semanalmente a comunidade Che Guevara, que nasceu como uma base de apoio de um assentamento do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), e hoje conta com cerca de cem famílias – algumas estabelecidas há dez anos. “Essa experiência me abriu os olhos para uma cidade invisível. As comunidades onde a gente trabalha nã são parecidas com nada que a gente vê na TV. Elas vivem em uma condição muito vulnerável. A minha família materna é muito humilde, habitou casas de pau-a-pique, mas quando entrei na Teto eu realmente entendi o que é pobreza”, relata Alice, que é coordenadora da equipe de voluntários da Che Guevara.

ONG constrói casas emergenciais para comunidades  (Foto: Divulgação)

 

Colocar jovens em contato com realidades totalmente diferentes daquelas em que estão inseridos também é um dos pilares da atuação desenvolvida pela ONG. “Esse convívio e o trabalho em conjunto têm um poder de transformação e de quebra de preconceitos enorme”, pontua Nina. E a troca é enriquecedora para os dois lados. “Nós estamos muito acostumados com um tipo de conhecimento, o conhecimento acadêmico, e acabamos ignorando os saberes ancestrais. A gente tem conhecimento técnico, mas eles têm conhecimento de vida. Sermos recebidos todo domingo com sorrisos, alegria, hospitalidade… Isso ensina muito sobre como encarar a vida e os problemas”, compartilha Alice. Viabilizar ideias e promover a autogestão dentro dos grupos é uma das funções do acompanhamento contínuo junto às comunidades. Por meio do FunTeto, as equipes fixas e os moradores arrecadam verba para tirar planos do papel. “O projeto deve ser aprovado pelo edital e, se validado, a Teto financia 60% e a comunidade precisa ir atrás dos 40% por meio de bazares, eventos e doações”, explica Alice. A iniciativa estimula o desenvolvimento comunitário, tanto na melhoria das instalações, coma construção de sedes, espaços recreativos, transformação de lixões em áreas de convivência, quanto promovendo a autogestão dos moradores, incentivando-os a fazer tudo em conjunto para que, em algum momento, não precisem mais de ajuda externa.

ONG constrói casas emergenciais para comunidades  (Foto: Divulgação)

 

Desenvolver ações de alta complexidade, que mexam na infraestrutura das comunidades, como saneamento e pavimentação, é um desejo que a Teto pretende tornar possível nos próximos anos. Além de estender a atuação para outros estados do país e mobilizar mais voluntários. “Muitas famílias veem a casa da Teto como um palácio”, afirma Cleide, que vive em uma moradia construída pela ONG. Palavras que ratificam a necessidade e a importância de iniciativas que enxerguem nossas cidades invisíveis.

* Reportagem originalmente publicada na edição de junho da Casa Vogue

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