O que é design thinking e como você pode usá-lo para resolver problemas com criatividade (Foto: Catarina Bessell)


 

Problemas existem desde que o mundo é mundo. Tanto quanto comer, dormir e se abrigar, descobrir como solucioná-los faz parte da existência humana – e o design thinking consiste em uma poderosa ferramenta para isso. Apesar do nome, ela não se restringe só ao trabalho dos designers: pode e deve ser apropriada por outras áreas do conhecimento a fim de obter as melhores respostas aos desafios impostos à sociedade. Embora não se trate de uma prática nova (aIdeo, empresa internacional de design e consultoria em inovação fundada em Palo Alto, na Califórnia, disseminou o termo nos anos 1990), sua aproximação empática e sistêmica, que coloca o ser humano como fio condutor de todos os processos, parece ainda mais premente diante de uma pandemia mundial responsável por nos confrontar com questões inéditas a cada dia.

 

Todos podem adotar o design thinking para lidar com impasses de diferentes escalas e gerar soluções duradouras, embasadas na complexidade e diversidade humanas”
 

Em vez de querer apontar apressadamente uma saída, o design thinking propõe um profundo mergulho no imbróglio. “Pensar como designer não significa oferecer uma resolução mágica para tudo. Mais vale saber identificar o verdadeiro problema para, então, direcionar a criatividade”, sentencia Clara Bidorini, arquiteta e head de inovação da consultoria global Kyvo Design-DrivenInnovation. A abordagem requer um olhar sensível. “Ela resgata a complexidade humana e a insere no centro das decisões. Antes do financeiramente viável e  tecnologicamente possível, o foco recai sobre o que é desejável para aquele grupo”, explica Manuela Macario, designer e facilitadora de experiências de aprendizagem e projetos de inovação.

CADA ETAPA IMPORTA
De empresas e instituições públicas a pequenos empreendedores, qualquer um consegue se beneficiar do design thinking como objetivo de lidar com impasses de diferentes escalas. Para isso, não há receita pronta e nem tarefas mecânicas ou repetitivas a cumprir, mas algumas etapas bem definidas e um conjunto de estratégias. Parte-se de um movimento de divergência: “Para obter uma visão sistêmica, é preciso primeiro explorar todos os caminhos e possibilidades”, justifica Manuela, líder de uma especialização na Echos, laboratório de inovação que presta consultoria nessa área para empresas e oferece cursos por meio da Escola Design Thinking. Nessa hora, o trabalho pede um procedimento profundo de entendimento e observação, embasado em um dos seus principais valores: a empatia. “É essencial conhecer o indivíduo, seus hábitos, vontades, necessidades e dificuldades, se aproximar sem julgamentos e conseguir se transportar para o universo dele, a ponto de se sentir como ele. Quando você chega aí, a probabilidade de sucesso aumenta muito”, lembra Henrique Von, diretor do Think LAB da IBM e professor nos cursos de MBA da ESPM.

Após praticar esse exercício e ir a fundo na análise das dores e dos problemas das pessoas, o time envolvido produz uma síntese. Esta é a fase de convergência: determinar o que deve ser resolvido ou inventado do zero. Alcançar este ponto de vista implica muita colaboração, outro princípio fundamental. “Uma equipe em que cada um tem um repertório de vida e diferentes vivências profissionais propicia uma visão mais holística. Construir sobre bases múltiplas permite alavancar uma inteligência compartilhada e montar propostas com aderência, que façam sentido em um determinado contexto e gerem impacto positivo para todos os atores envolvidos, mitigando erros e riscos”, argumenta Manuela. Só aí se inicia, enfim, o processo criativo. O grupodesenha diversas propostas e as confronta entre si.

“Nesta cocriação, uma ideia se encaixa na outra, melhoraa outra, aliando sabedorias e aprendizados coletivos”, pontua Von. Em seguida, entram em campo a prototipação e os testes. A experimentação é o terceiro pilar do design thinking. Apenas dotados de feedbacksos profissionais saberão se entregaram algo de valor. Após realizar inúmeras interações com o usuário final, geralmente de forma rápida e barata, vem a definição se o projeto avança para o desenvolvimento ouse precisa de reparos, melhorias, ou até mesmo de refação – neste caso, existe a chance de voltar a qualquer uma das etapas anteriores para se aprofundar mais e ajustar o que deu errado.

O FUTURO QUE DESEJAMOS
A lógica de entender o problema antes de pensar na resposta permite resultados mais impactantes e perenes, já que os recursos para formulá-los pertencem às pessoas que irão utilizá-los. “O design thinking ajuda a criar futuros desejáveis, não uma solução para o presente ou que venha de uma só pessoa. Ao desenhar experiências, precisamos incorporar elementos que não se esgotem, mas, sim, se preserveme, ao mesmo tempo, se transformem ao longo da história”, aposta Clara, que também é professora de Gestão pelo Design e Service Design no Istituto Europeodi Design, e de Pensamento Sistêmico na Echos. Para ela, a arquitetura que projeta para si, em nome de um estilo próprio e não de um legado para o mundo, não cumpre sua função. “Encontrar uma conclusão sozinho, sem levar em conta toda a complexidade e diversidade do ser humano, culmina em um projeto falho. Se soubermos usar a riqueza que está no outro, e não em nós, temos a oportunidade de propor algo duradouro.” Esboçar esses espaços, portanto, continua passando pela coletividade. “Não é porque estamos sob risco de contágio de uma doença que deixamos de ser sociáveis. Não há muros invisíveis entre nós.”

Como funciona na prática?

Confira três exemplos de empresas que lançaram mão do design thinking para resolver suas dores (e as de seus clientes)

O que é design thinking e como você pode usá-lo para resolver problemas com criatividade (Foto: Lufe Gomes)


 

VISITA SENSORIAL
Após uma consultoria com Henrique Von, as designers de interiores Luiza Amaral e Fernanda Nasser, sócias no Concretize Interiores, confirmaram o que já intuíam no dia a dia do escritório: “A insatisfação do cliente não acontece na fase de projeto, mas na execução, quando ele entra em contato com um ambiente sujo, com o qual não está acostumado, e começa a gastar mais dinheiro”, pontua Luiza. Ao se debruçarem sobre essa questão, estressante no decorrer da empreitada inteira, perceberam que, quanto menos o futuro morador se envolve nessa etapa, maior é a surpresa e a satisfação com o resultado final. Depois de cogitar até vetar em contrato as visitas sem acompanhamento, medida potencialmente antipática, elas encontraram uma alternativa. “Vamos com o proprietário à obra, em um dia combinado, entregamosum capacete de proteção e oferecemos a ele a chance de participar de algum trabalho. Pode ser quebrar uma parede, assentar um ladrilho, dar umas pinceladas durante a pintura”, fala Luiza. A saída estabelece uma conexão entre o cliente e sua futura residência, além de transformar um possível incômodo em uma memória prazerosa, valiosa e única para ele.

O que é design thinking e como você pode usá-lo para resolver problemas com criatividade (Foto: Marcelo Donatelli)


 

CUBO MÁGICO
Na instituição de ensino paulistana Insper, uma área antes mal utilizada, sem personalidade, hoje abriga o Hub de Inovação, ponto de encontro para os estudantes pensarem novas ideias e negócios. A iniciativa da It’sInformov, com conceito da arquiteta Nara Grossi, pretende despertar emoções. “Um dia, já no final da instalação, um segurança olhou para o teto e falou: ‘nossa, ficou tão bonito. Essas luzes parecem um céu estrelado’”, relata Nara, lembrando da sensação boa provocada por esse comentário. Além dos elementos luminosos, uma membrana de tecido delimita o local de forma suave. “Eu não queria fechar por completo. Um cubo de vidro não faria sentido.” No espaço de convivência, topografias com estruturas que lembram uma árvore funcionam como mesase bancos. Pequenas salas contam com divisórias holográficas e espelhadas. “Ao ressignificar esse ambiente, entregamos um lugar como qual as pessoas se identificam. E isso tem tudo a ver como conceito do Insper, nome que vem dos verbos inspirar e pertencer”, completa.

 

O que é design thinking e como você pode usá-lo para resolver problemas com criatividade (Foto: Mauricio Bazilio/Secretaria de Saúde do RJ)


 

TÚNEL LÚDICO
Responsável por desenvolver máquinas de diagnóstico de alta tecnologia para a GE Healthcare, o designer Doug Dietz, que atua na empresa há mais de 30 anos, teve a oportunidade de ver uma de suas criações funcionando em um hospital. Nessa ocasião, descobriu que a ressonância magnética aterrorizava as crianças – 80% delas precisavam de sedação antes do exame. Perceber o medo e a ansiedade que o equipamento causava provocou uma crise que mudaria o olhar de Doug. Como não seria possível refazer a máquina, ele se concentrou em repensar a interação com ela. Analisou o universo infantil por meio da observação de alunos em uma creche e de conversas com médicos e enfermeiros, e então sugeriu converter a sala de exame em uma história de aventura, protagonizada pelo paciente. Para isso, os aparelhos e as superfícies de todo o ambiente ganharam adesivos que simulam cenários como um navio pirata, um submarino ou uma espaçonave. E os operadores receberam capacitação para conduzir a narrativa. A fantasia derrubou drasticamente o número de sedações e diminuiu o tempo e o custo do procedimento, o que impactou todos os envolvidos positivamente.

*Reportagem originalmente publicada na edição de junho/julho da Casa Vogue

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