Novos bairros de Brasília despertam discussão sobre urbanismo da capital (Foto: Carlo Ratti Associati/Divulgação)

 

Em 1960, Brasília era moderna. Largas avenidas, o conceito das Superquadras posto em prática, um belo paisagismo crescendo entre edifícios residenciais, centro administrativo bem delimitado – tudo parecia feito sob medida para o futuro imaginado pelos urbanistas da época. Corta para 2020. Brasília segue linda, arborizada e com o respiro estético primoroso, uma beleza ao alcance dos olhos de qualquer visitante. Assim como a desigualdade social. Morar no Plano Piloto custa caro. Hoje, estima-se que apenas 10% da população do DF viva realmente entre Asa Sul e Asa Norte. Os outros 90% dividem-se no entorno e pelas crescentes Regiões Administrativas – novo nome para as antigas Cidades Satélites.

“Devemos encarar com tranquilidade as mudanças bem planejadas nas funções urbanas. Os dois empreendimentos mais recentes apresentados pelo Governo do Distrito Federal parecem respeitar o projeto original e farão parte da identidade da cidade”, afirma o coordenador da comissão Temporária de Assistência Técnica e Política Urbana do CAU-DF, Antônio Menezes Júnior. Antônio se refere à Biotic, nome dado ao parque tecnológico em implantação na cidade, e ao bairro novo ainda sem nome, apresentado pelo governador Ibaneis Rocha no começo de agosto, a ser instalado num terreno do Exército Brasileiro, nos arredores da antiga Rodoferroviária de Brasília.

Novos bairros de Brasília despertam discussão sobre urbanismo da capital (Foto: Carlo Ratti Associati/Divulgação)


 

A Biotic tem encontrado espaço nos noticiários econômicos nas últimas semanas, depois de anunciar que captaria recursos privados por meio de um Fundo de Investimento Imobiliário FII com certificação ESG (sigla de Environmental, Social e Governance, que tem base nos 10 Princípios do Pacto Global da ONU) para financiar sua construção. Oficialmente criada em 2017, a Biotic se apresenta como o parque tecnológico capaz de acrescentar à vocação administrativa de Brasília ares de pólo digital, concentrando empresas dos ramos da tecnologia da informação, comunicação e biotecnologia. Para isso, conta com uma área de 1,2 milhão de metros quadrados, localizados entre a Granja do Torto e o Parque Nacional de Brasília.

“O pólo tecnológico sinaliza uma boa perspectiva, uma intenção de dar nova vocação a uma cidade essencialmente administrativa. A Biotic vai encontrar em Brasília uma cidade plana, limpa, com bom aeroporto. Nota-se a boa vontade e as boas intenções dos envolvidos, mas eles deveriam prestar mais contas à comunidade. Parece um investimento cujo benefício não será tão imediato para a população ”, aponta Antônio, com relação à Terracap, que subsidia a Biotic.

Quem assina o projeto é o italiano Carlo Ratti. “Carlo Ratti ficou responsável pela concepção do masterplan do Parque Tecnológico de Brasília, com uma abordagem que dialogasse com os conceitos urbanísticos e arquitetônicos da cidade, com a sustentabilidade ambiental, com a inovação tecnológica, aplicando os conceitos de smart cities para termos um bairro orientado para as pessoas”, afirma o Presidente da Biotic, Gustavo Dias Henrique.

Novos bairros de Brasília despertam discussão sobre urbanismo da capital (Foto: Carlo Ratti Associati/Divulgação)

 

Entre os arquitetos, o que se diz sobre o projeto de Ratti é que pareceu uma tentativa de ser simpático à ideia original das Superquadras, mas que se revelou equivocada. As grandes quadras e edifícios poderiam se tornar mais funcionais e relevantes com a defesa de modelos inovadores e atuais, que envolvem cidades compactas e de alta densidade. O risco de criar algo muito amplo é o de perder o terreno para a especulação imobiliária. A ociosidade tem valor elevado, e o mercado imobiliário captura os empreendimentos que se desvirtuam.

Novos bairros de Brasília despertam discussão sobre urbanismo da capital (Foto: Carlo Ratti Associati/Divulgação)

 

Quanto ao bairro novo ainda sem nome a ser implantado nos arredores da antiga Rodoferroviária, pouco se sabe. A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Habitação – Seduh– esboçou um plano de ocupação dos mais de 4,2 milhões de m² com 21 mil imóveis, para abrigar 63 mil pessoas. À primeira vista, parece um projeto com edifícios baixos e pouco adensados. Até o fechamento desta reportagem, as autarquias envolvidas no planejamento urbano da cidade não haviam sido convidadas para debater o uso do terreno, que pertencia à Secretaria de Patrimônio da União, mas que hoje está jurisdicionado para o Exército Brasileiro. “Não está clara a razão desse acordo de cooperação entre o Governo do Distrito Federal e o Exército Brasileiro, mas parece uma boa oportunidade de promover oferta habitacional. O modelo não deveria simplesmente colocar o terreno no mercado. Seria interessante convocar a sociedade para definir junto os parâmetros urbanísticos do conjunto. Sabe-se que o maior déficit habitacional do DF se concentra nas rendas baixa e média. Esse poderia ser o início de um projeto inovador, com maior altura, mais densidade, mantendo o princípio de cidade verde”, avalia Antônio.

Quem vive longe de Brasília se surpreende ao ouvir sobre incrementos ao plano urbanístico original da cidade e pode até pensar que o projeto de Lucio Costa sofre com as mudanças. Longe disso. É natural que as cidades evoluam – e elas precisam de espaço para que isso aconteça. O próprio Lucio Costa assina o projeto do Setor Sudoeste, região administrativa próxima ao Parque da Cidade criada pelo urbanista ainda no fim dos anos 1980. A partir de 1993, com a entrega dos primeiros blocos de apartamentos, a região começou a ser habitada. Hoje dados apontam que mais de 55 mil pessoas vivam no bairro. Brasília cresce. Nos resta torcer para que seja com equilíbrio.

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