Muitos mais que objetos: tapeçaria na Turquia é arte milenar que reflete riqueza cultural (Foto: Shutterstock / Sotnikov Misha)

 

“Onde eu nasci, todos os tapetes usados nas casas de mulheres ao meu entorno, parentes e vizinhas, eram tecidos por elas mesmas”, afirma Şerife Atlıhan. Quem lê a frase no Ocidente pode pensar que Şerife se refere a um simples passatempo entre um grupo de mulheres da sua infância. Mas o tear manual está longe de ser um hobby na Turquia, país de origem de Şerife. Designer, professora e especialista na arte têxtil tradicional da região ocidental da Anatólia, Atlıhan teve contato com a tapeçaria tradicional turca — arte milenar à qual, mais tarde, viria a dedicar anos de estudo — desde pequena. “Toda casa tinha um tear de tapetes próprio. As mulheres que não sabiam tecer não eram respeitadas na sociedade. [Por isso] quando eu era criança, minha mãe tecia tapetes para mim e para minha irmã como uma forma de dote. Ela me ensinava a fazer as estampas mais básicas, para que eu também aprendesse”, relembra. O comportamento, explica a professora, era tradicional, e é o que garante a sobrevivência atual das técnicas milenares usadas na produção de tapetes turcos até hoje — uma arte que, em muitos aspectos, espelha a história, a diversidade cultural e algumas tradições populares de uma das nações mais antigas do mundo.

Muitos mais que objetos: tapeçaria na Turquia é arte milenar que reflete riqueza cultural (Foto: Shutterstock / Yana Vydrenkova)

 

 

Com uma população atual de aproximadamente 82 milhões de habitantes, o país hoje abriga turcos, curdos, e diversos outros grupos étnicos que incluem albaneses, árabes, bósnios, gregos e armênios. Uma de suas regiões mais culturalmente ricas é a península da Anatólia, região que, desde a Antiguidade, funcionava como uma passagem entre dois continentes e uma ponte entre as diversas civilizações e impérios que dominaram ou passaram pela área. É justamente nesta região que a arte turca da tapeçaria, que já era social e economicamente importante para tribos turcas nômades, conseguiu se espalhar para regiões da Europa.

PERSONEL ÇEKİMİ (Foto: Turkish Tourism Board Archive / Divulgação)

 

“Antes de chegarem à Anatólia, os turcos viviam em regiões montanhosas da Ásia Central, onde o clima e a terra não eram apropriadas para a agricultura. Eles, então, sobreviviam graças a criações de ovelhas e cavalos”, explica a professora. “Eles costumavam fabricar tapetes a partir do feltro de lã das ovelhas. E, para se proteger do frio, eles cobriam a si próprios e aos seus animais com tapetes e mantas. Por milhares de anos, os turcos continuaram a tecer não apenas para suprir este tipo de necessidade, mas para propósitos econômicos também. Devido à seca na Ásia Central, os turcos começaram a migrar para o ocidente e levavam sua arte de tecelagem consigo. Eles continuaram a produzir esta arte para fins econômicos quando chegaram à Anatólia”.

E foi nesta região que a tecelagem turca se desenvolveu a ponto de iniciar uma exportação de tapetes da Anatólia para a Europa já no século XIII, e que continua até hoje. Vem daí o grande número de tapetes turcos que são representados nas artes medievais europeias e que estão presentes em museus, igrejas e até palácios no continente.

Muitos mais que objetos: tapeçaria na Turquia é arte milenar que reflete riqueza cultural (Foto: Shutterstock / bahadir ay)

 

“A Anatólia é um mosaico cultural”, resume a professora Atlıhan. Por isso, os tapetes lá produzidos refletem, por meio de suas cores e estampas, as diferentes regiões da Turquia onde tiveram sua origem. “Pense neles [tapetes] como línguas: cada país tem sua própria linguagem, e, para cada linguagem, existem diferentes sotaques e variações lexicais entre as regiões. Os designs, as cores, os materiais, e as técnicas de tecelagem vistas em tapetes turcos refletem isso. É isso o que faz com os tapetes da Turquia sejam diferentes da tecelagem de outros países”.

Muitos mais que objetos: tapeçaria na Turquia é arte milenar que reflete riqueza cultural (Foto: Şerife Atlıhan / Divulgação)

 

“As estampas em carpetes e tapetes turcos têm nomes”, continua a especialista. “Acredita-se que as texturas de tapetes tradicionais tenham sido símbolos no passado. De acordo com crenças, as pessoas inserem, até hoje, os símbolos de olhos e mãos na tecelagem para que fiquem protegidas do ‘olho do mal’. Cabeças de carneiro, espigas de trigo, videiras e romãs simbolizam riqueza e abundância. A árvore da vida representa uma vida longa e próspera. E tapetes com estampas que lembram uma mulher com as mãos na cintura simbolizam uma deusa”, explica Atlıhan.

Muitos mais que objetos: tapeçaria na Turquia é arte milenar que reflete riqueza cultural (Foto: Şerife Atlıhan / Divulgação)

 

Mas é claro que todo o fazer artesanal carrega consigo, além das tradições e técnicas antigas, uma marca individual de quem os produziu. No caso de Atlıhan, que também é designer, a profissional vê sua formação acadêmica como parte importante de sua produção autoral. “Quando crio meus próprios designs, eu penso em quais materiais preciso usar para realçá-los ao máximo, as cores que preciso inserir e as técnicas que preciso aplicar. Estes são elementos importantes. E, para manter viva a tradição, eu uso estampas tradicionais e fios tingidos manual e naturalmente”.

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Muitos mais que objetos: tapeçaria na Turquia é arte milenar que reflete riqueza cultural (Foto: Şerife Atlıhan / Divulgação)

 

Atualmente, porém, a tecelagem manual na Turquia tem decaído como consequência do avanço industrial. Mas a técnica ainda representa uma oportunidade de renda para populações que vivem em vilas e áreas rurais do país, explica a acadêmica. E o fato de carregarem consigo as técnicas, estampas, texturas e cores utilizadas há séculos pelos povos locais confirma sua importância histórica e cultural — sem falar em seu uso como expressão artística individual. “Mesmo que os tapetes tenham uma estampa ou cores tradicionais, cada tecelão (ou tecelã) adiciona seus próprios desenhos e cores de seu gosto pessoal. As peças podem parecer similares, mas elas nunca são uma cópia umas das outras. É justamente a expressão artística individual dos tecelões que tornam cada tapete produzido na Turquia único, em todos os aspectos”.

 

Şerife Atlıhan é designer e foi chefe do departamento de design na Fábrica Têxtil Sezik, em Izmir. Em 2000, tornou-se professora na Universidade de Mármara, onde posteriormente atuou como chefe do Departamento de Artes Turcas Tradicionais e diretora do Centro de Pesquisa e Aplicação de Artesanato e Design. É especialista em arte têxtil tradicional da Anatólia Ocidental.

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