Mudaremos a forma de usar a casa por causa do isolamento? (Foto: daniloz)


 

Em um de seus últimos livros, o influente arquiteto, professor e escritor norte-americano Michael Sorkin, falecido em março em razão de complicações causadas pela Covid-19, escreveu uma lista intitulada “250 coisas que um arquiteto deveria saber”. Entre os itens, chamam a atenção imagens poéticas que remetem à intimidade do cotidiano, a exemplo de “o toque do mármore frio sob os pés descalços”, “como abrir a janela” e “a distância para um sussurro”. Pode soar simples, mas questões como essas, elencadas por Sorkin na publicação What Goes Up (Verso Books, 368 págs., sem edição em português), de 2018, tomam outra dimensão neste momento, confrontadas com a recomendação de distanciamento social e confinamento. Afinal, em todo o globo, o interior doméstico se vê no centro das estratégias de combate à disseminação do novo coronavírus. Segundo a empresa Inloco, especializada em tecnologia baseada nos dados de localização de 60 milhões de brasileiros, o índice de isolamento nacional atingiu um pico de 62,2%, em março (em maio, ficou em cerca de 43%).

 

Mudaremos a forma de usar a casa por causa do isolamento? (Foto: daniloz)


 

LAR, DOCE LAR?
Num país marcado pela desigualdade social, dramaticamente escancarada pelo vírus, aqueles com o privilégio de ter um teto e ficar reclusos se viram, de repente, pondo à prova esse lugar, nem sempre concebido para tamanha presença. “Os projetos, principalmente de quem vive nas metrópoles, vinham sendo desenhados para passarmos pouco tempo neles. Daí as áreas muito integradas, como a cozinha aberta e a sala de TV inserida no trecho social. Mas, hoje, com tudo ocupado simultaneamente em família, as pessoas começam a sentir falta de paredes”, avalia a arquiteta Fernanda Marques. Para o arquiteto Maurício Arruda, prioridades mudarão. “Esta é uma fase fundamental para reconhecermos o que realmente precisamos”, afirma ele, que acabou remodelando o próprio apartamento. “Eu não sabia afundo o que acontecia aqui durante o dia, os melhores pontos de sol… Troquei o escritório de posição, deixei tudo mais prático de limpar”, revela. O diretor do Istituto Europeodi Design (IED Internacional), Fabio Palma, recente habitante de um estúdio de 40 m², adotou lógica semelhante para evitar a sensação de clausura. “Alterei a disposição dos móveis em função dos usos, separando o local de trabalho do resto e deixando um canto para o exercício físico. Ou seja, reprojetei o espaço, ainda que minimamente.”

Os projetos consideravam que os moradores passavam pouco tempo neles. Agora, com tudo ocupado simultaneamente, as paredes começam a fazer falta”
Fernanda Marques, arquiteta

HORA DE MUDAR
A evolução dos ambientes domésticos ao longo dos séculos comprova o conceito do lar como organismo vivo, cujo formato responde às necessidades de sua época e seu contexto. A tão contemporânea ênfase no conforto espelha a progressiva relevância da individualidade, do mundo interno e da família, como relata o livro Casa: Pequena História de uma Ideia (Ed. Record, 268 págs.), de Witold Rybczynski. E o que o futuro dirá sobre o comportamento das casas a partir deste instante tão crítico?

Eis a atual investigação do Núcleo de Estudos de Habitares Interativos da Universidade de São Paulo (Nomads-USP), que acaba de lançar a pesquisa Con:finis. A proposta em pauta é elaborar o processo de ressignificação do morar, agora acentuado pela pandemia. Entre os temas do projeto, sobressai a questão histórica, que identifica a habitação francesa burguesa do século 19, pós-revolução industrial, como modelo ainda vigente. “Os apartamentos seguiam a regra do setor social e de serviço, a divisão em cômodos, os banheiros azulejados, a descarga sanitária com água. Residências pensadas para resistir às doenças, o que incluía janelas fechadas, vidros fixos e muros, de modo a separar o fora, sujo e perigoso, do dentro, limpo e seguro”, fala Marcelo Tramontano, arquiteto e coordenador do grupo.

Exatamente como nos dias atuais. “Estamos discutindo o que vai permanecer na pós-pandemia.” O papel da flexibilidade é um dos mais ressaltados pelos arquitetos. Vemos a mesa de jantar convertida em bancada de trabalho e sala de aula. O estar, em academia de ginástica. O quarto, em ponto estratégico para uma reunião on-line sem interrupções. “A gente já percebeu que tem de se adaptar muito rapidamente a novas situações, e a casa vai refletir isso”, considera Fernanda.

O mesmo vale para o mobiliário. “Ganha força a multifunção, ou seja, aquilo que discutimos desde os anos 1950. Cito, por exemplo, o designer italiano Joe Colombo, que, em 1969, criou a cama reversível Cabriolet, um modelo abre-fecha”, lembra o arquiteto Guto Requena. Principalmente nos apartamentos pequenos, cujas áreas dos lançamentos de 1 e 2 quartos giraram em torno de 31 m² e 46 m² no primeiro trimestre de 2020, conforme dados da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), a concepção de cômodo é suplantada pela de atividade. “A redução de metragem vem dos anos 1970, quando as construtoras delegaram algumas funções aos espaços comuns, mesmo caso do coworking nos anos 2000.

Mas, agora, como isso funcionaria? E como trabalhar em áreas reduzidas diante da sobreposição de funções? Equações para o mercado imobiliário”, provoca Tramontano. Conhecida pelos estúdios em torno de 26 m², a construtora Vitacon prevê uma reformulação. “Uma série de tendências que vínhamos acompanhando aceleraram. O home office para o nosso público é muito real, e levamos isso em conta no coworking dos prédios. Queremos subdividir esses grandes ambientes antes compartilhados em porções menores para fazer frente ao momento”, fala Alexandre Lafer Frankel, CEO da empresa. Já Basilio Chedid Jafet, presidente do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), nota, desde o início da quarentena, um novo anseio: a busca por mais um cômodo. “Isso talvez seja uma herança da crise, quem sabe já vislumbrando a atuação profissional remota.”

Para muitos, essa alternativa crescerá em relevância e impactará no desenho doméstico, exigindo bancada, iluminação e ergonomia planejadas. “Mesmo quando isso acabar, as pessoas vão trabalhar mais em casa”, aposta Requena. O que nos conduz a outro lugar: o quarto. “Passamos a nos refugiar ali, por isso veremos a valorização dos setores íntimos nas plantas”, considera Fernanda. Nessa seara, Arruda recorre ao apelo do sensorial. “As superfícies que propiciam isso ganharão atenção: lençóis, toalhas, tapetes, cabeceiras. Sem esquecer da luz.”

DO MICRO AO MACRO
O design surge como importante ferramenta, não apenas nos objetos companheiros de confinamento, mas como solução de problemas. “Esta crise nos confronta com questões da sociedade orientada para o consumo. Nós mal sabemos mais trocar uma lâmpada. O design consegue nos ensinar a consertar as coisas e a fazê-las com as próprias mãos, reapreciando o que temos”, defende Richard van der Laken, diretor criativo da plataforma What Design Can Do. O gosto pelo faça-você-mesmo pode se irradiar para os ambientes. “Veremos as pessoas mais livres em relação aos modelos de habitação? Acho que sim, pois cada um já está tentando entender a casa do seu jeito”, observa Tramontano.

Na outra ponta, o enfrentamento do próprio morar nos põe a refletir sobre nosso planeta, a ideia maior de lar. “Esse bloqueio forçado nos levará a compreender o que estava dando errado. A humanidade tem de revisar profundamente a relação com a natureza”, propõe o arquiteto italiano Stefano Boeri, conhecido pela defesa de prédios como florestas urbanas.

 


De acordo com a arquiteta franco-brasileira Elizabeth de Portzamparc, a pandemia aponta a urgência de transformações em vários níveis. “É necessário ultrapassar o âmbito de seus efeitos em nossa casa particular, a que comporta nossos corpos e família, e olhar o abrigo mais amplo, sem o qual não podemos viver: o mundo. E ele está doente, sofrendo há décadas com a corrosão ambiental. Só a sustentabilidade em cada um de nossos projetos defenderá a qualidade de vida individual e coletiva”, argumenta. Pareciam ser também essas as preocupações de Sorkin. No item 139 de sua lista, ele coloca que todo arquiteto deve saber “o valor da vida humana” e, no 222, “o diâmetro da Terra”.

©











Loading...