Milano Design City (Foto: Amir Farzad)

 

Já era fim da tarde quando, no primeiro dia do Milano Design City, entrei no showroom de uma marca de iluminação, uma das mais importantes da Itália. Me apresentei como jornalista brasileira, para euforia da assessora de imprensa: “É a primeira visita internacional que recebemos!”. Em seguida, por 40 minutos me mostrou todas as novidades, explicando tecnologias e diferenciais. Sem pressa e com muita gentileza.

A cena dá uma ideia do que foi essa semana de design “fora de época” na cidade símbolo da criatividade e da excelência industrial do “made in Italy”. Um Fuorisalone sem Salone, com o dobro de dias, poucos estrangeiros e mais álcool em gel do que Aperol spritz. Em tudo, incomparável com sua tradicional versão de abril.

 

 

O evento, entre 28/9 e 10/10, foi uma iniciativa da prefeitura de Milão para movimentar um dos segmentos que mais agitam a cidade e a economia do país – mais da metade da produção de móveis e iluminação é exportada. Cancelado neste ano devido à pandemia, o Salão do Móvel recebeu, na última edição, 386 mil visitantes de 181 países. E, além dele, outros 1.200 acontecimentos se espalharam por outros endereços. Mas isso foi pré-coronavírus. Agora, houve bem menos gente para participar das cerca de 300 iniciativas registradas neste Milano Design City. O que não foi necessariamente ruim.

Sumiram mega-instalações instagramáveis patrocinadas por gigantes de outros segmentos, o que resultou no refortalecimento da cadeia produtiva de móveis, revestimentos, iluminação e acessórios – a verdadeira essência de uma semana de design. Também por causa dos dias a mais, ficou possível dar conta de tudo, visitar com calma os principais showrooms e galerias, observar, perguntar, experimentar, ouvir, sentir.

As medidas anti-Covid também fizeram desaparecer situações superlotadas nos espaços fechados, e as maiores atrações exigiam agendamento de horário mesmo que fossem gratuitas, além de uso de máscara e distanciamento de segurança.

Se por um lado foi importante retomar o aspecto presencial para perceber dimensões, materiais e texturas – e fazer contatos e negócios –, por outro, o avanço do digital nos últimos meses dispensou o acompanhamento in loco de debates, que podem alcançar muito mais audiência online.

Em conversa com designers, galeristas e lojistas, o tom foi de satisfação. O importante, repetiam, é que o Milano Design City possibilitou aos protagonistas do design o sentimento de recomeço. “É verdade que tem menos gente, mas era necessário haver este reinício. Para mim, foi muito interessante, e os encontros, produtivos. Podemos alcançar os outros que não vieram de outras formas”, disse a galerista Rossana Orlandi, organizadora de três mostras simultâneas.

“Dentro de uma situação perturbada e complexa, estamos muito orgulhosos. Não digo que não perdemos o ritmo com o lockdown, porque aconteceu. Mas, assim que acabou, retomamos nosso discurso”, afirmou a designer e diretora artística Patricia Urquiola, com diversos lançamentos pela cidade.

Do mesmo modo que a pandemia mudou os eventos, isso pode ser dito também sobre os lançamentos, ainda que a transformação esteja, até agora, mais nos olhos do público do que na peça em si. A maioria dos itens havia sido desenhada e fabricada para a semana de abril, numa era pré-vírus, o que automaticamente fez envelhecer algumas novidades. O que pensar, por exemplo, de produtos idealizados para hotéis e escritórios, quando grande parte do mundo ainda não pode viajar e continua trabalhando de casa?

Cassina apresenta seus lançamentos e uso de novos materiais no Milano Design City (Foto: DePasquale + Maffini)

 

Por outro lado, ganharam mais relevância aqueles dedicados ao ambiente doméstico com multifunções, recursos de bem-estar ou oferecendo flexibilidade, conforto, alegria, toque e beleza. Nessa linha, destaque para a Cassina, que ampliou seu catálogo para a área noite, que nos últimos meses acumulou funções – “refletir e se regenerar”, mas também trabalhar. Assim é a cama “Bio-mbo”, de Urquiola, com tecnologia para purificar o ar e absorver ruídos e cabeceira alta, que permite posicionar a cama no centro do quarto, criando espaço mais reservado para uma escrivaninha, por exemplo.

Ainda por lá, dois biombos chegam para ajudar a dar multiuso aos ambientes. Um, assinado pela dupla chinesa Neri&Hu, propõe uma possibilidade de refúgio flexível dentro da área íntima. Outro é o “Paravento Balla”, com desenho futurista criado em 1917 por Giacomo Balla. Em duas versões coloridas, são soluções divertidas para criar subespaços na área social.

Milano Design City (Foto: Divulgação/B&B Italia)

 

Também na linha conforto e flexibilidade está a reedição da B&B Italia do sofá “Camaleonda”, de Mario Bellini, criado há 50 anos. Ele pode ser de diversas formas e dimensões, graças aos assentos, encostos e apoios de braços que se prendem e desprendem facilmente devido ao sistema de ganchos e anéis.

Milano Design City (Foto: Divulgação/Cappellini)

 

A proposta modular também é a característica principal do sofá “Litos”, do alemão Sebastian Herkner, para a Cappellini. São oito elementos independentes, que possibilitam ao menos 13 versões.

Milano Design City (Foto: Federico Torra)

 

Na iluminação, além das propostas cada vez mais tecnológicas e sofisticadas concebidas para ambientes corporativos ou hospitaleiros, destaque para as reedições decorativas da Flos, como a “Chiara” (1969), de Mario Bellini, em versão de chão e de mesa, e o pendente “Diabolo”, criado em 1998 por Achille Castiglioni – última colaboração dele com a marca antes de morrer, em 2002.

Milano Design City (Foto: Divulgação/Artemide)

 

 

Na Artemide, ainda dentro da escala doméstica, é bem-vinda a versão portátil da luminária “Gople”, dos escritório BIG, que pode ter até 32 horas de autonomia. E, também portátil, chega a “Bontà”, criada pelo chef Davide Oldani, que serve de abajur e centro de mesa, com a luz realçando ingredientes, frutas ou pães.

Independentemente do país, os últimos oito meses intensificaram nossa relação com a casa. Houve quem, inesperadamente, precisou trabalhar na mesa de jantar, acomodar os filhos em longas aulas virtuais e cozinhar, limpar e arrumar muito mais do que fazia antes. Não raro, tudo isso aconteceu ao mesmo tempo, no mesmo ambiente.

 

 

Quando reabertas nas cidades que passaram por quarentenas longas, as lojas da Ikea registraram longas filas na porta por vários dias. A gigante do varejo tem sido rápida em detectar essas novas demandas e entendeu que a casa não é mais só morar, mas sim viver, como mostra seu catálogo recém-lançado. Como resultado, anunciou a abertura de mais 50 lojas nos próximos 12 meses, mesmo que as compras online tenham crescido.

Os impactos do mundo pandêmico apareceram timidamente nas novidades deste Milano Design City. Mas esse foi só o recomeço e a edição do ano que vem, seja em abril ou em outubro, promete.

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