Nicole Tomazi e Sergio Cabral (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

 

Antes de mais nada, peço desculpas pela minha ausência. Nas últimas semanas tive a oportunidade de passear pelo Brasil de carro em uma viagem amorosa de Lua de Mel (sim, Sergio e eu casamos) que me levou de São Paulo até a Bahia e depois até a minha terra, o Rio Grande do Sul. Vivenciar a mudança da paisagem pela janela me lembrou dos meus estudos sobre território. Observar as diferenças na prática funciona como uma ampliação de perspectiva – nos próximos parágrafos eu te conto como.

 

 

 

 

Podemos encontrar estudos sobre o território em diversas partes do mundo, porém as pesquisas sobre território e design se aprofundaram na academia italiana. O termo Design Territorial faz referência ao processo de design aliado aos estudos do território, valorizando a unicidade de cada lugar. Mas como isso se dá na prática?

Façamos o simples exercício de imaginarmos que os territórios são pessoas. Cada um deles tem um corpo, um jeito de falar, de arrumar o cabelo, de se vestir. Se cada pessoa é um universo, cada território é também um lugar único, com características específicas encontradas somente ali. Este conjunto de elementos particulares é chamado pelos teóricos de Genius Loci, ou o Espírito do Lugar.

Os projetos voltados ao território utilizam o Genius Loci como diferencial, enaltecendo justamente as peculiaridades do lugar para apresentar seus atrativos. É como quando valorizamos nossas características positivas, encontrando as belezas em nossos corpos, ao invés de apontarmos nossos defeitos. O belo desse processo é o reforço da autoestima, que funciona para nós como pessoas da mesma maneira que para os territórios e seus habitantes.

Palha de trigo (Foto: Acervo pessoal/Nicole Tomazi)

 

Uma vez tive a oportunidade de visitar uma produção de queijos em Roquefort, na França. O queijo Roquefort tem o que chamamos de Denominação de Origem, um termo que diz que ali se faz um queijo de uma maneira única, com matérias primas do lugar aliadas ao clima, a posição geográfica e a cultura local. Ao comprar esse queijo estamos consumindo um território, já que ele é feito com o leite das ovelhas que comem insumos que só existem lá, e é produzido por pessoas que têm um modo de vida particular e resolveram aproveitar a formação geológica daquele lugar para fazer e armazenar seus queijos. Pronto, temos aí um produto oriundo do território com Genius Loci que toma conta do nosso paladar.

Portal Rede Artesol 3 (Foto: Camila Pinheiro)

 

No Brasil, acontece a mesma coisa. Percorrendo as estradas, é visível a diferença entre a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, com suas cores e formas, e a cerâmica capixaba, com as icônicas panelas de barro. Desta panela nasce uma moqueca totalmente diferente da moqueca baiana, o que reforça a teoria do Espírito do Lugar e suas características únicas.

Panela de barro capixaba (Foto: Divulgação/Artesol)

 

Outro exemplo é o das fibras naturais: a trama da palha de trigo feita no sul é completamente diferente da trama do açaí, feita na Bahia, e é aí que mora a riqueza de todas as coisas feitas pelas mãos dos povos que habitam o território brasileiro. Dá pra vivenciar o Genius Loci através dos gostos, dos cheiros, das texturas e de tudo aquilo que nasce de cada cantinho do nosso país.

Indicações geográficas brasileiras artesanato (Foto: SEBRAE)

 

Tanto as pesquisas sobre território como a concessão e salvaguarda das identidades geográficas são movimentos visíveis em muitos países, principalmente na Europa. Travamos contato com denominações de origem sem perceber, no Presunto de Parma, no Pesto Genovês, no Pastel de Belém e em diversos vinhos, o que agrega valor material e imaterial a estes produtos. No Brasil o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), é a instituição responsável pelo registro das indicações geográficas no país. As IG, como são chamadas, começaram a ser protegidas com a promulgação da Lei nº 9.279/1996, e, até junho de 2016, o INPI havia recebido 104 pedidos de IG, seja na espécie Indicação de Procedência (IP), seja na Denominação de Origem (DO). A 5ª edição do Catálogo de Indicações Geográficas Brasileiras desenvolvida pelo INPI e o SEBRAE traz a informação de que, no total, 56 IG já foram registradas pelo instituto, sendo 48 nacionais e oito estrangeiras. Dentro destes números de 2016, temos oito indicações geográficas do artesanato, ou seja, territórios com notoriedade na produção de determinado produto ou prestação de um serviço. São elas:

Cariri Paraibano – renda renascença

Divina Pastora – renda de agulha em lacê

Goiabeiras (bairro da cidade de Vitória) – panela de barro

Paraíba – têxteis em algodão colorido

Dom Pedro II – opalas preciosas e joias artesanais de opalas

Região das Lagoas de Mundaú-Manguaba – bordado filé

Região do Jalapão, TO – artesanato em Capim Dourado

São João Del Rei – peças artesanais em Estanho

As indicações geográficas servem de bússola no caminho da busca do que é único e importante de ser preservado. O Brasil é imenso e bonito, como cada um de nós, habitantes desta terra. O exercício de reconhecer a beleza na nossa unicidade começa em nos olharmos com carinho, nossos corpos, cabelos, mãos, sotaques, sorrisos. Encontrar beleza dentro das pessoas, e no que brota delas. Querer ser quem somos, sem padrões e regras. Nossas histórias precisam continuar a serem contadas através do que comemos, observamos e fazemos, de maneira natural. O território é um de nossos corpos. Cuidemos para que ele seja livre para ser quem é.

 

 

 

 

 

*Nicole Tomazi aprendeu bordado, crochê e tricô com sua avó, quando era criança. O forte vínculo com o território, a cultura local, a ancestralidade e o feminino são a base do seu trabalho e da sua pesquisa pessoal. No ano de 2007 decidiu atuar junto a grupos de artesãos unindo design e artesanato em suas produções, tornando-se uma voz atuante na área. Seus produtos autorais já foram expostos na Semana de Design de Milão em 2009, 2010, 2012, 2013 e 2015, sendo finalista do Salone Satellite por duas vezes, apresentando ao mundo o artesanato brasileiro em suas criações. Ganhadora de prêmios como Casa Vogue Design e Planeta Casa, destaca-se por unir teoria e prática, pesquisando incansavelmente maneiras de valorizar a cultura do trabalho manual do país. Formada em Arquitetura e Urbanismo é Mestra em Design com ênfase em Artesanato, Território e Patrimônio e atualmente forma a dupla Nicole Tomazi + Sergio Cabral.

©











Loading...