Como a apropriação cultural se manifesta na arquitetura e no design? (Foto: Tainan Rocha)

 

No início da edição brasileira de seu livro, Memórias da Plantação (Cobogó, 248 págs.), a artista portuguesa Grada Kilomba alerta sobre as nossas escolhas como sociedade, a começar pelas palavras. “A língua, por mais poética que possa ser, guarda também uma dimensão política de criar, fixar e perpetuar relações de poder e de violência, pois cada palavra que usamos define o lugar de uma identidade.” O que isso tem a ver com design, arquitetura? No momento em que o debate antirracista vive episódios dolorosamente simbólicos, levar a reflexão de Grada ao morar soa pertinente e vital. “Tudo é discurso. Decoração e arquitetura são discursos que expressam um tempo, uma época, valores, preconceitos. A arte também pode manifestar racismo e apropriação cultural”, afirma o babalorixá e doutor em ciências sociais Rodney William, autor do livro Apropriação Cultural (Pólen Livros, 149 págs.).

 

Racismo não é só a ação episódica de alguns indivíduos, mas da sociedade toda. Não precisa agir de maneira bruta, basta estar no piloto automático
Rosane Borges

OLHOS NA HISTÓRIA
Um breve percurso pelos séculos ajuda a adentrar a questão. O arquiteto e indigenista Igor de Vetyemy, atual presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, seção Rio de Janeiro (IABRJ), define a mescla de referências vista em nossas moradas como “o estilo colonial português com influência moura, somado às soluções locais”. “Nossa arquitetura absorveu muitos elementos indígenas, inclusive em termos de materiais, como a taipa, o barro, sobretudo nas construções mais simples. Mas essa mistura que nos forma sempre gerou certa inquietação nos arquitetos, desejosos de encontrar uma identidade brasileira. Lúcio Costa e Lina Bo Bardi simbolizam tal busca. Essa geração viu no movimento moderno a possibilidade de estabelecer uma linguagem nacional”, conta. Professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA), a arquiteta Gabriela Leandro complementa o raciocínio. “A sociedade brasileira se constituiu a partir de processos violentos de colonização e escravização. Em seguida, ela forjou certa ideia de país multicultural harmonicamente fundado. Isso veio do século 19, mas, na década de 1930, se tornou um projeto”, explica. O Brasil moderno elegeu, então, seus símbolos. “Era preciso criá-los, ainda que estruturalmente não tivéssemos incorporado todas as dimensões das vidas negras, mestiças e indígenas no mesmo patamar de equivalência, direito e acesso. Quando analisamos a arquitetura e a decoração, este é o pano de fundo”, afirma.

Assim, o espaço doméstico carrega um passado como qual nunca rompemos, causa da forte desigualdade social registrada aqui – a sétima maior do mundo, segundo dado de 2017 do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). “A organização das casas, que segrega áreas íntimas e de serviço, pressupõe sujeitos diferentes. A estrutura da sociedade brasileira aparece na forma como a arquitetura se setoriza”, fala Gabriela. A presença do quarto de serviço nas plantas é um exemplo. “Não há constrangimento em ter um ambiente onde mal entra luz e para o qual o arquiteto precisa desenhar móveis menores, para que caibam. Por outro lado, se os construtores não o oferecem, como fica? Esta discussão materializa como estamos imbuídos dessa lógica, mesmo que nos furtemos a discuti-la. ”De acordo com Rosane Borges, pesquisadora na área de ciências da comunicação, o espaço reflete as nossas visões de mundo, raça e classe. “Se a gente considera, como diz o historiador francês Pierre Nora, que os lugares guardam e projetam para fora as memórias de quem os habita, eles também flagram as desigualdades.”

Tudo isso transparece no desenho urbano. “As cidades nasceram a partir dessa vontade de memória: o que elas querem tornar visível nas arquiteturas e nos monumentos que erguem, bem como nos territórios de privilégios e destruição”, prossegue Rosane. Aí se encontram as fronteiras riscadas nas metrópoles brasileiras. “A favela não inaugura o problema da cidade, foi criada por ela, pela maneira como se organizou, inviabilizando outros tipos de moradia, sobretudo para as pessoas negras. Isso envolve uma série de questões relacionadas ao modo de vida”, define Gabriela. Modo de vida de mais de 5 milhões de domicílios ocupando os chamados aglomerados subnormais, como mostram os dados estimados em 2019 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Cofundadora de um coletivo dedicado à transformação da Ceilândia, DF, a arquiteta Kariny Nery lida de perto com urgências típicas dessas localidades. “A gente pensa no modernismo e fala em menos é mais, enquanto as periferias sofrem sempre coma falta de alguma coisa. Não há políticas públicas para resolver essas ausências que são desassociadas, de maneira errônea, da pluralidade das questões raciais”, diz.

CULTURA DOMINANTE
Para o DJ e diretor de teatro Eugênio Lima, cujas peças muitas vezes abordam o espaço urbano e seus conflitos, a sociedade brasileira tenta resolver suas contradições a partir de um apartheid cultural. “A história dos vencidos é contada pelos vencedores, mas este não é um processo passivo, e, sim, de muita fricção”, observa. A arquiteta Tainá de Paula, copresidente IAB-RJ, acrescenta que a participação de negros e negras foi excluída dos debates da área. “Nomes como o de Tebas não são pesquisados, pois, para além do apagamento, existe a apropriação de sua produção pelo mainstream. Ser lembrado pela produção é um lugar de poder”, acredita. Joaquim Pinto de Oliveira (1721-1811), ou Tebas, participou de obras como a da antiga Catedral da Sé, em São Paulo. Raquel Freire, do coletivo Arquitetas Invisíveis, coloca isso numa perspectiva macro. “Se o ensino e o mercado buscam referências brancas europeias e ocidentais, estão nos apontando a cultura dominante, quem é o sujeito que será reproduzido na arte, na arquitetura, no urbanismo, no design…”

Por isso, apropriação cultural e apagamento – com consequente esvaziamento de sentidos – andam juntos. “A apropriação se dá quando você toma conta de um contexto alheio, faz uma releitura e, a partir dela, atribui elementos de outra cultura, neutralizando o caráter original e exercendo um apagamento também do pertencimento histórico daquela cultura. O Egito é um exemplo, apresentado durante muito tempo com um povo embranquecido nos filmes. E esse processo de violência incide em todas as esferas sociais”, define Katiúscia Ribeiro, especializada em filosofia africana.

Não por acaso, o debate em torno do tema chama cada vez mais atenção. “As trocas culturais são densas e esse é um caminho irreversível. O que defino como apropriação é quando, nesse movimento, nós consumimos bens culturais de vários grupos, apagando seu protagonismo. Vivemos em um país marcado racialmente e isso atinge a todos nós. Racismo não é só a ação episódica de alguns indivíduos, mas da sociedade toda. Não precisa agir de maneira bruta, basta estar no piloto automático. Uma amiga minha gosta de arte indígena e tem um quadro, mas não sabe de qual etnia. Se fosse uma obra de Van Gogh, ela daria nome, não diria ‘esse é um artista europeu’. Percebe a diferença?”, compara Rosane. No âmbito do design, a arquiteta Thaís Nara, do Studio Brava, questiona o termo “ressignificar”. “É comum ver profissionais na TV propondo a ressignificação do palete, por exemplo. Ressignificar para quem, no Brasil? Soa como um selo branco da validação de uma estética popular.”

VOLTANDO AO ASSUNTO
Após esse vasto panorama, retomemos o fio da meada de como nossas escolhas viram discursos. “A apropriação é negativa quando pressupõe o uso de elementos sem sua compreensão, desrespeitando os significados históricos que eles possuem para a resistência dessas pessoas”, diz William. Entre os exemplos que nos cercam, as peças do estilo blackamoor, comum nos séculos 17 e 18, retratam negros em situação de servidão. Uma breve busca na internet mostra itens à venda por preços altos. “Ver Debret em um museu como narrativa histórica de um momento do Brasil é uma coisa. Ter uma decoração com motivos coloniais que exprimem esse tempo de escravização e negação de qualquer direito é outra.

O blackamoor diz que o lugar do negro é o da subalternização”, complementa. Em seu livro, Grada lembra as bonecas negras surgidas como enfeite para famílias brancas nos Estados Unidos no período pós-Guerra de Secessão (a partir de 1865, quando aboliu-se a escravidão naquele país).“Trata-se da recriação do cenário da escravização, que o sujeito branco insiste em ter”, escreve. Preferências como essas remoem as feridas abertas do colonialismo, como descreve o cacique Zé Guajajara, da aldeia multiétnica Maracanã, no Rio de Janeiro. “Desde que a cultura dominante europeia invadiu essa parte das Américas chamada Brasil, pisaram duro nos povos originários, que já estavam aqui havia pelo menos 45 mil anos, como indicam achados arqueológicos, matando-os, invisibilizando-os. A apropriação predatória cruel acontece até hoje.” Para Elvira Sateré Mawé, que vive na Aldeia Vertical, no Catumbi, no Rio de Janeiro, na banalização está o desrespeito. “Eu me sinto incomodada quando vejo um cocar, uma pintura, um brinco usados apenas como enfeite ou fantasia, sem conhecimento do que significam.”

 

TROCAS JUSTAS
Conhecer melhor a origem daquilo que se adquire é a atitude esperada pelos produtores. “Atualmente, uma das principais fontes de subsistência dos povos indígenas vem da comercialização de seus artefatos. O problema é quando são utilizados de forma pejorativa, como em alguns blocos de carnaval”, reforça Zé Guajajara. Hãgui Pataxó, cacique da aldeia Pataxó Hahahãe, em Paraty, RJ, confirma. “É um desrespeito porque tudo é sagrado para a gente. Mas, quando a pessoa cultiva nossos adereços com respeito, tranquilo.” Trabalhando há mais de 35 anos com consultoria de artesanato pelo Brasil, o designer Renato Imbroisi destaca a relevância do diálogo. “Você está ali em função da comunidade, e não para criar um produto da sua marca. Dá para perceber os casos que não resultam em benefício para os envolvidos, que muitas vezes produzem hoje para vender hoje mesmo”, atesta. À frente da Feira Preta, evento que, ano passado, reuniu 170 empreendedores, Adriana Barbosa lembra o caso de um brinco com simbologias do empoderamento negro nascido ali de maneira artesanal que, em poucas semanas, apareceu vendido em escala em um bairro de comércio em São Paulo. “A apropriação se dá sem compreender o ponto de partida e o contexto. Ninguém deve deixar de consumir, apenas entender o que está comprando”, pondera. Esse é o mesmo olhar de Lima. “É necessário alimentar uma postura crítica em relação àquilo que se adquire, saber mais da obra e onde ela se insere. Sair da caixa e da biblioteca colonialista dá trabalho, exige pensar. A questão extrapola muito o fato de comprar ou não uma almofada.” E aí reside o poder urgente das escolhas de uma sociedade, do espaço público às palavras, passando pelos itens que temos em nossa casa.

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