Empenas de prédios, muros e o próprio espaço público firmam-se como áreas expositivas abertas e acessíveis a todos. Conheça artistas que fazem de grafites, megapainéis e instalações urbanas uma manifestação democrática dos anseios do nosso tempo.

 

8 artistas que transformam a cidade em um grande acervo de arte urbana (Foto: Deco Cury)

 

OSGEMEOS
Responsáveis por colocar a capital paulista no mapa-múndi da arte de rua, os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo, 46 anos, formam um só artista de quatro mãos chamado OSGEMEOS. Alçados do ateliê no bairro do Cambuci, na região central, a mais de 60 países, com direito a temporadas nas principais instituições dedicadas à produção contemporânea (como o The Institute of Contemporary Art, em Boston, e a Galleria Patricia Armocida, em Milão), seus trabalhos contam histórias que transitam entre sonho e questionamento, realidade e fantasia. A dupla começou a pintar ainda na infância, contagiada pela cultura hip-hop, muito potente nos subúrbios paulistanos nos anos 1980. A cada criação, estabeleceu a identidade mantida até hoje – e que está em cartaz em sua primeira retrospectiva, OSGEMEOS: Segredos, na Pinacoteca, em São Paulo, após sucessivos adiamentos devido à pandemia de Covid-19. “É interessante perceber como um desenho de 1981 conversa com outro de 2020. A gente se tocou disso conforme foi redescobrindo esse material”, diz OSGEMEOS. @osgemeos

8 artistas que transformam a cidade em um grande acervo de arte urbana (Foto: Wesley Diego Emes)

 

CRIOLA
A artista visual mineira Criola encontrou nos sprays uma forma de se expressar pelas ruas de Belo Horizonte. Muito antes de a representatividade entrar para a pauta discutida por boa parte da sociedade, ela já levantava essa questão. “Ia para a faculdade de ônibus e pela janela só via outdoors de pessoas brancas. Estava cansada dessa exclusão de meus ancestrais. Então o grafite surgiu na minha vida como suporte para eu contar a verdade que acredito”, lembra. Com uma vibrante paleta de cores de matriz africana, seus murais – presentes também nas ruas de São Paulo, Rio de Janeiro, Paris e Minsk – retratam a cultura, a história e a condição negras em contraponto à narrativa dominante, e incluem o feminismo na temática. “Como uma planta, se perdemos o contato com nossas próprias raízes, não obteremos a sustentação e a nutrição necessárias”, compara. “A rua é um reflexo do nosso modo de vida, ela escancara nossas próprias mentiras.” @criola_

8 artistas que transformam a cidade em um grande acervo de arte urbana (Foto: Wesley Diego Emes)

 

SPETO
Da mesma geração d’OSGEMEOS, o muralista e artista plástico paulistano Paulo César Silva, 49, mais conhecido como Speto, desenvolveu uma linguagem genuinamente nacional, embasada na xilogravura e na tradição do cordel, assim como no modernismo – referências visíveis em linhas geométricas harmônicas, sinuosas e cheias de ritmo. “Ao idealizar um mural, eu caminho bastante pelo local onde ele será feito para entender o espaço. Sigo um pensamento arquitetônico no sentido de integrá-lo ao entorno”, explica. Nos anos 1990, ajudou a elaborar a identidade visual de bandas como Raimundos, Nação Zumbi e O Rappa. Na década seguinte, com a fama mundial da arte urbana brasileira, Speto espalhou seu trabalho por 15 países (que pretende revisitar em 2021, quando completa 50 anos) e expôs em museus e galerias da Europa e dos Estados Unidos. Entre suas obras mais recentes, figuram um mural com quase 3 mil m² em Fortaleza, uma dupla de empenas perto do Minhocão, e um retrato de João Gilberto próximo ao Mercado Municipal, ambos em São Paulo. “Quis dar à morte dele [em 2019] o reconhecimento que o governo não deu”, sublinha. @speto

8 artistas que transformam a cidade em um grande acervo de arte urbana (Foto: Wesley Diego Emes)

 

FLIP
Quando finalizar o Aquário Urbano, conjunto de 15 empenas com motivos marinhos que somam mais de 10 mil m² e circundam a esquina das ruas Major Sertório e Bento Freitas, no centro paulistano, o grafiteiro e artista plástico local Felipe Yung deve entrar para o Guinness como o responsável pela maior obra de arte urbana do mundo. “São Paulo é uma cidade massacrantemente cinza. Trazer luz e cor para um lugar tão monótono, em tons pastel, dá uma quebrada”, diz ele, conhecido pelo codinome Flip. “A arte de rua é gratuita e acessível. Qualquer um pode ser impactado por ela”, afirma. Aos 42 anos, com trabalhos em Madri, Nova York, Moscou, Londres, Tóquio e Paris, Flip começou a grafitar caligrafias em 1995, inspirado pela cultura hip-hop. Além do Aquário, tem se dedicado à produção de telas e planeja para o ano que vem a exposição Dinastia Yung, em parceria com seu tio, o fotógrafo Americo Yung, e o filho Bento, de três anos, que é autista e constantemente estimulado pelo pai com sessões de arteterapia. @flipon

8 artistas que transformam a cidade em um grande acervo de arte urbana (Foto: Wesley Diego Emes)

 

EDUARDO SRUR
Bonecos em caiaques no Rio Pinheiros lembraram a época em que ele era propício para banho; esculturas monumentais de garrafas PET flutuando no Tietê denunciaram sua poluição; centenas de boias no espelho-d’água do Congresso Nacional deram um recado com a frase “a arte salva”; uma árvore cortada com diversas serras elétricas e pintada de vermelho exibia o dizer Ibirá Iguy (árvore que sangra, em tupi-guarani). Eis algumas das intervenções de Eduardo Srur, 46, que enxerga na cidade um laboratório de pesquisa e usa o espaço público como plataforma para investigar questões atuais e urgentes. “A arte não tem de ser bonita, ela tem de ser reflexiva, tirar o espectador da sua zona de conforto”, defende o artista plástico paulistano, participante de mostras realizadas em países como Suíça, Inglaterra, Croácia e Cuba. Durante a pandemia, Srur lançou a série Máscaras que Salvam, com palavras de incentivo estampadas no acessório, e montou a instalação Cura – a cruz vermelha pintada em lona, que recobre a caixa-d’água de seu prédio e pode ser vista da Marginal Pinheiros, representa a proteção do lar e uma homenagem aos profissionais da saúde. @eduardosrur

8 artistas que transformam a cidade em um grande acervo de arte urbana (Foto: Wesley Diego Emes)

 

SIMONE SISS
Carolina de Jesus, dona Ivone Lara, Elza Soares, Marielle Franco, Marta Silva, Hilda Hilst, Simone de Beauvoir, Frida Kahlo e Virginia Woolf exemplificam as figuras femininas pintadas com estêncil pela grafiteira paulistana Simone Sapienza Siss, 47. “Uma das minhas bases é falar de mulheres fortes que chegaram onde supostamente não deviam, relembrar quem abriu caminho para a gente”, explica ela, que também utiliza lambe-lambes, ícones, super-heróis, referências do cinema, frases de efeito e versos poéticos em sua obra. “Se você entra num museu ou numa galeria, sabe o que vai encontrar. Já a rua surpreende, cada esquina encanta pela arte e pela poesia”, acrescenta. Um ponto alto de sua carreira foi um grafite de 2012 com a Mulher Maravilha segurando dois sprays de tinta, com as palavras “TPM – Tô Pixando Muro”. No mesmo ano, Simone venceu um concurso realizado pelo Museu da Imagem e do Som para estampar a capa do single Superstar, de Madonna. @simonesiss

 

8 artistas que transformam a cidade em um grande acervo de arte urbana (Foto: Wesley Diego Emes)

 

MUNDANO
Não é porque uma obra está na rua que ela precisa ficar parada. Thiago Mundano, 34, artista e ativista, ou “artivista”, como ele se define, iniciou em 2012 o projeto Pimp My Carroça. A ação converte a tradicional ferramenta dos catadores de lixo em telas sobre rodas, a fim de garantir visibilidade aos responsáveis pela coleta de 90% dos materiais recicláveis da maior metrópole brasileira. “A pessoa está no trânsito, vê a carroça, desce a janela do carro, puxa assunto e, assim, fura a bolha. A arte na rua promove interações, por isso é viva”, diz. Com foco em direitos humanos e meio ambiente, seu grafite combina imagens vibrantes e frases provocativas que escancaram contradições. Mais dois exemplos recentes: em 2018, a exposição Vozes Mundanas, na galeria Emmathomas, apresentou a imagem do megafone para dar voz a determinadas causas, e, desde o começo deste ano, um mural no centro de São Paulo com lama e resíduos do Rio Paraopeba chama a atenção para as vítimas da tragédia de Brumadinho, MG. A releitura de Operários, de Tarsila do Amaral, marcou um ano do desastre. @mundano_sp

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