Artista e babalorixá abre as portas de sua casa de 400 m² repleta de obras (Foto: Ruy Teixeira)

 

Historicamente, nosso país deve espaços de representatividades culturais não brancos à nação. Sabemos que nos grandes circuitos do mercado artístico tradicional, o desafio é ainda maior. Mas como mudar este cenário? Quais são as novas, ou não tão novas, dinâmicas de divulgação da produção artística de autoria negra? São questões que o pesquisador Alan Arie, juntamente com a curadora Carollina Lauriano e os artistas plásticos Moisés Patrício e Heloisa Ariadne trarão para o debate no Casa Vogue Experience 2020, em bate-papo que acontece no dia 03/12 às 11h15.

As plataformas virtuais listadas abaixo são alguns dos caminhos apontados pelos convidados para expandir o conhecimento dessa produção tão rica, mas é importante ressaltar que o debate envolve muito mais do que expor as obras, e requer uma mudança de comportamento nas próprias instituições tradicionais da arte.

 

 

1. PROJETO AFRO

A começar pelas estatísticas, o desafio de encontrar um número que pudesse revelar a pouca presença negra nos vários postos dos tradicionais meios de difusão das artes, como as galerias, centros culturais e museus, levou o pesquisador Alan Arie a criar o Projeto Afro. “Uma plataforma afro-brasileira de mapeamento e difusão de artistas negras, negros e negres”, explica Arie. 

Pensado como o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Arie, a plataforma que também está no Instagram, convida o leitor e pesquisador do tema a conhecer diversos aspectos das produções artísticas, como mapa interativo, artistas, artigos colaborativos, etc. Mas é importante lembrar que esse não é o único ou o primeiro estudo sobre o assunto realizado no Brasil. “Renata Felinto também o fez e periodicamente vão surgindo outros mapeamentos” ressalta. 

Para o pesquisador, mudar as estruturas das instituições hegemônicas pode ser um passo para a inclusão de mais negros no setor. “É necessário uma política revisionista do comportamento excludente [dessas instituições] e construir novos espaços para que as pessoas negras e indígenas possam se expressar e também permanecer nesses circuitos” salienta Arie. “Tudo parte da educação e incentivo do espaço/tempo [para com o artista]”, completa.

2. 0101

 

Outro local de divulgação e promoção do protagonismo negro nas artes é a plataforma 0101, criada com a colaboração do artista Moisés Patrício para incentivar a produção e a comercialização de obras de artistas africanos e afrodiaspóricos.

Embora Patrício reconheça o desafio da população negra existir na rede virtual, dado ao acesso ainda antidemocrático da internet no Brasil, ele acredita que as plataformas permitem outras interações com a arte que o mercado tradicional não proporciona. “O mercado da arte é um lugar que congelou no tempo, que não dá mais conta das novas dinâmicas” comenta. Já estas plataformas existem como uma espécie de fôlego a quem deseja descobrir novas formas de se relacionar nesse mundo artístico. “0101 tem essa vontade de oxigenar as dinâmicas artísticas que estão paradas no tempo”, salienta.

O artista também acredita que as instituições hegemônicas devam dialogar mais com outros pontos de arte no Brasil, como por exemplo, os terreiros e aldeias indígenas. “Traçar novas rotas de troca”, complementa.

4 iniciativas digitais para conhecer a produção artística negra no Brasil (Foto: Reprodução/Instagram @heloisahariadne)

 

3. Trovoa

A Trovoa teve sua origem no Rio de Janeiro e funciona como articulação de um movimento nacional nas artes visuais. Composto por mulheres não brancas, a plataforma impulsiona ações que se espalham pelo Brasil todo. A curadora Carollina Lauriano – dentre outras artistas e curadoras – colabora com a mídia nas realizações de exposições, oficinas, seminários e outras atividades promovidas em todo o país. São ações que difundem o fazer artístico de autoria não branca e que nascem desse diálogo virtual.

4. HOA

 

Essa é uma galeria de arte que faz parte da HOA TOUR, uma organização artística, e que também tem a colaboração de Carollina Lauriano e o apoio de outros artistas não brancos. A plataforma propõe que além de ver, vender e comprar, você pode ensinar, alcançar e mudar a ideia de arte latino-americana, outrora cooptada pela visão burguesa e norte/eurocêntrica da arte.

Para a curadora, essas manifestações virtuais atendem ao anseio de uma organização autônoma de representação cultural. “Pensar nas outras possibilidades de existir, sem excluir o que há, mas criar esses lugares de troca, força e pertencimento é o caminho”, ressalta Lauriano. “A força vem dessa união de criar esse ambiente por e para o artista não branco” avalia.

Quando se pensa a posição da população negra do mercado de arte tradicional no Brasil, pouco se fala das relações que as instituições hegemônicas estabelecem com esses artistas. Segundo Lauriano é importante analisar isso para que as instituições saibam como agir. “Entender as diferenciações de fala, de pesquisa, de cosmovisões e da produção [de arte de autoria negra] é o primeiro passo” pontua a curadora.

Os vários caminhos

Apoiando essas iniciativas, a artista plástica Heloisa Ariadne acredita na potência dos vários caminhos para se visibilizar as produções artísticas de autoria negra. “O espaço virtual a gente já fazia, porque se dependêssemos do mercado não estaríamos dentro”, comenta. A artista já participou de uma exposição coletiva, ‘A noite não adormecerá jamais nos nossos olhos’, promovida pela Trovoa, em 2019, na galeria Baró, região central de São Paulo. Essa mostra teve a curadoria da Carollina Lauriano e destacou para Ariadne a importância da proximidade do artista na organização expositiva da obra.

A artista corrobora com a ideia de visibilizar e fortalecer as dinâmicas virtuais de trocas artísticas, mas ressalta o cuidado de não perdermos o contato do real, do físico com essa produção. “Ambos se complementam”, salienta.

Por fim, Ariadne aponta que um dos caminhos para que o mercado da arte verdadeiramente contribua para a diminuição das suas desiguais representações culturais é ter em sua composição total, composição estrutural, não somente o artista, mas demais postos ocupados pela população negra, indígena, não branca. “E, acima de tudo, não objetificá-los”, finaliza.

Quer saber mais sobre representitividade cultural? Lembre-se, esses quatro convidados estarão no Casa Vogue Experience 2020 em uma conversa imperdível sobre o tema e muito mais no dia 03/12 às 11h15. Confira abaixo:

 

Casa Vogue Experience 2020
Quando: de 01 a 04 de dezembro
Onde: neste ano, toda a programação será transmitida em nosso canal no Youtube, nas redes sociais e outras plataformas digitais.
Confira a programação completa do evento

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